Ciência contra a desinformação

 

Texto Márcia Abraão Moura*

 

Entre os séculos XVI e XVII, Galileu Galilei realizou experimentos que mudaram para sempre o fazer científico. Filósofo, físico e matemático, ele questionou o método até então estabelecido, que se baseava em observação metódica e conclusão lógica, para introduzir a prática da experimentação. 

Conta a história que Galileu lançou duas balas metálicas (de diferentes tamanhos) do alto da Torre de Pisa, na Itália, para verificar como elas chegavam ao chão. Descobriu que a aceleração era uniforme, independentemente do peso do objeto e, com isso, sacramentou o ritual da verificação das teorias científicas. Parece pouco, mas o aperfeiçoamento do método trouxe a noção de que as teorias devem ser constantemente testadas e, portanto, validadas por meio da realização de experiências.

 

Graças a esse avanço (e a outros subsequentes), a ciência moderna cresceu e se consolidou, tornando-se uma potente ferramenta para conhecer o mundo e combater a desinformação. Hoje, contudo, cinco séculos depois de Galileu, assistimos ao ressurgimento de crenças obscurantistas, que ameaçam não apenas a produção do saber, mas também a educação, as políticas públicas e a saúde humana. Um exemplo é o questionamento, sem apresentação de evidências geológicas, da estrutura e forma da Terra, prática que pode ter implicações diretas para a indústria mineral e para o comportamento das pessoas e governos em relação a áreas propícias para terremotos de grande magnitude.

 

No centro do debate sobre a importância da ciência, aparecem as universidades, espaços dedicados à formação de profissionais e pesquisadores, onde se exercita o pensamento crítico, com respeito à pluralidade e à liberdade de expressão e opinião. A despeito de suas características intrínsecas, que promovem o saber, as instituições de ensino superior vêm sendo alvos constantes de ataques – e isso não é uma exclusividade do Brasil. 

 

No caso brasileiro, porém, agrava-se o quadro, uma vez que as universidades são parte essencial da cadeia de desenvolvimento científico e tecnológico do país. Mais de 90% da ciência brasileira é produzida por instituições públicas, a grande maioria delas sendo universidades. Na UnB, por exemplo, foram desenvolvidos 3.558 projetos de pesquisa nos últimos cinco anos, muitos em cooperação internacional. 

 

Entre os anos de 2013 e 2017, a nossa produção científica alcançou 15.578 publicações em periódicos qualificados, mais da metade internacionais (54%), e se encontra em ascensão. Temos 96 programas de pós-graduação, em todas as áreas do conhecimento. No ano passado, foram defendidas cerca de 2.200 teses e dissertações na instituição.

 

Os estudos conduzidos na Universidade ajudam a buscar soluções para problemas locais e nacionais. A título de exemplo, há um grupo que pesquisa o caramujo gigante, vetor de um dos tipos de meningite. Outro investiga compostos que possam combater o Aedes aegypti de forma mais eficiente. Um terceiro desenvolve tecnologias biomédicas que podem ser levadas para o Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Isso sem falar nos diversos projetos que criam ferramentas ou otimizam as já existentes no Estado brasileiro, ou os que tratam de pautas identitárias, ajudam a aprimorar as políticas públicas e a melhorar as condições ambientais. A Universidade é uma máquina de conhecimento, básico e aplicado, que cumpre um papel estratégico e social de grande relevância. 

 

É com esse espírito que apresentamos mais uma edição da Darcy, a revista de jornalismo científico e cultural da UnB. Além de realizarmos pesquisa de excelência, com destaque internacional, investimos na divulgação científica, essencial para que todos se apropriem, cada vez mais, do conhecimento produzido pela instituição. Neste número, conteúdos especiais sobre os 50 anos da chegada do homem à Lua, feito sobre o qual ainda pairam afirmações conspiratórias, e que guarda em si o grande mérito da ciência: fazer avançar a humanidade e o conhecimento sobre o Universo em que vivemos. Boa leitura!

 

* Reitora da Universidade de Brasília

 

Mulher das Estrelas: 25 anos desvendando o universo

 

Texto Duilia de Mello

 

Não me lembro do pouso na Lua, tinha apenas cinco anos e meio. Ainda não estava na escola e, às vezes, eu me pergunto se não teria sido este o motivo da minha falta de lembrança. Afinal, lembro-me bem do meu primeiro dia na escola, que aconteceu apenas oito meses depois. Era a Copa de 1970 e este foi o ano mais marcante da minha vida, não porque ganhamos a Copa, mas porque aprendi a ler. Ah, como eu gostava de ir às aulas! Era uma escola pública perto da nossa casa em Bonsucesso, no Rio de Janeiro. Foi a tia Lucília que revelou para mim o universo da leitura.  Ler era como um quebra-cabeça em que, no final, a frase fazia sentido! 

 

Passei por várias escolas em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Minha mãe pelejava para que os quatro filhos estudassem na mesma instituição. Nem sempre dava certo e eu acabei não estudando com meus irmãos no Rio. Minha mãe conseguiu uma bolsa em um colégio de freiras e foi lá que despertei o meu interesse pela ciência. Tinha um professor genial que nos estimulava em várias áreas científicas. 

 

Aos 12 anos, aprendi o ciclo da borboleta e resolvi testar. Meu experimento não deu certo. Levei a borboleta enrugada para o professor Rubenito e perguntei muito decepcionada: por que a minha borboleta não voa? Ele arriscou: tenta novamente e agora coloca um pouco de água no vidro. Minha veia de cientista começou a pulsar, tentei novamente e a borboleta voou. Que satisfação! 

 

Curiosamente, voltei a repetir esse sentimento, 22 anos depois, quando descobri uma estrela supernova em um observatório no Chile. É uma sensação indescritível. Talvez seja este o momento Eureka que dizem que Arquimedes teve ao entender como objetos boiam na água. Esses momentos só ocorrem quando juntamos o nosso conhecimento com aquilo que acabamos de resolver ou presenciar. Um sentimento parecido com aquele que descrevi quando aprendi a ler: no final, a frase fazia sentido. 

 

Fiquei muitos anos sem me lembrar das borboletas, mas sei que tudo aquilo se reflete no que sou hoje. Não me lembro das missões Apollo. Recordo outras que vieram a seguir. Em 1979, a Pioneer 11 passou perto de Saturno, e li em uma revista que a imagem tinha viajado mais de um milhão de quilômetros para chegar até a Terra. Fiquei intrigada. Como se faz isto? Nessa época, não existia internet nem câmera digital e eu tinha apenas uns 15 anos. Perguntei e ninguém sabia me explicar. Sei que foi minha curiosidade em saber mais sobre tecnologia e ciência que me levou a seguir a carreira em Astronomia. 

 

Porém, quando revelei que queria ser astrônoma, minha mãe se preocupou: Astronomia era algo muito fora da caixa. Ela resolveu me levar ao Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Aos 16 anos, fui apresentada pela primeira vez à universidade pública brasileira e foi lá que cursei o bacharelado e o doutorado. Foi lá que aprendi a fazer ciência. 

 

Eu me espelhei em ótimos professores para decidir os passos a tomar. Sabia que seria uma longa jornada, pois ainda precisaria fazer pós-graduação. Aprendi então que existiam bolsas de estudo, só bastava achar o caminho. E sabia que, se eu não o achasse, teria que encontrar alguma outra solução. Afinal, eu tinha dito que viveria da Astronomia, no dia em que minha mãe me perguntou se eu estava certa da escolha e o que faria depois de formada. Foi quando falei que poderia ser professora, como os professores que ela tinha conhecido no Observatório do Valongo. A carreira agora parecia mais real, menos arriscada e fiz o vestibular para a UFRJ. 

 

No terceiro ano, comecei a iniciação científica no Observatório Nacional e obtive a minha primeira bolsa do CNPq. O CNPq, a Capes e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) financiaram meu mestrado no Instituto de Pesquisas Espaciais e meu doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Antes disto, eu já conhecia a Capes pois, ainda na graduação, fazia parte de um grupo de divulgação científica no Rio, coordenado por uma professora de Biologia. Ela treinava crianças a ensinar ciências para outras crianças em escolas municipais. Foi quando peguei amor pela divulgação científica e nunca mais larguei.

 

Eu admirava os professores que, apesar dos poucos recursos, faziam trabalhos de impacto e eram reconhecidos nas suas áreas de atuação. Durante a minha formação, conheci pesquisadores de todo o mundo que vinham ao Brasil trabalhar com os meus professores e entendi que, com a Astronomia, eu poderia desbravar o mundo. E fui. 

 

Passei pelo Alabama, pelo Chile, pela Suécia e já estou em Washington (EUA) há 11 anos, na Universidade Católica da América. Mas foi na universidade pública brasileira que adquiri o conhecimento que me permitiu um dia falar Eureka! Foi na universidade pública brasileira que eu me tornei confiante da minha capacidade e da minha formação. Foi lá que aprendi a não ter dúvida de que queria trabalhar com o telescópio espacial Hubble. E adivinhem? Hoje eu sei exatamente como as imagens do universo são feitas e com o Hubble viajo por bilhões de anos-luz desvendando o universo. E no final tudo faz sentido.

 

Quem é a pesquisadora:

Duilia de Mello é vice-reitora da Universidade Católica de Washington (EUA) e pesquisadora da Nasa. Premiada astrônoma, mestre em Astronomia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e pela Universidade do Alabama, doutora em Astronomia pela Universidade de São Paulo (USP). Tem pós-doutorado pelo Cerro Tololo Chile e pelo Instituto do Telescópio Espacial e é pesquisadora associada do Goddard Space Flight Center da Nasa, além de professora da CUA (PUC).