Um desafio nacional

 

A Política Nacional de Mobilidade Urbana, sancionada em 2012, estabeleceu o acesso universal à cidade para todos os cidadãos brasileiros, independentemente da forma de locomoção utilizada.

A lei foi fundamentada em uma série de princípios, entre eles o desenvolvimento sustentável e a equidade no acesso ao transporte coletivo e no uso do espaço público de circulação. Em seis anos, contudo, pouco se avançou para a concretização de muitas diretrizes explicitadas no texto, que deveriam ser aplicadas pelos municípios com a elaboração de planos locais de mobilidade.

 

O problema fica evidente ao observarmos a realidade das metrópoles. Quem mora mais afastado das zonas centrais precisa se espremer em ônibus e vagões de trens e metrô lotados, levando duas – por vezes, três horas – para chegar ao trabalho. Em avenidas e rodovias, impera o caos, com retenções e engarrafamentos cada vez mais extensos. Ciclistas e pedestres são preteridos e precisam disputar espaço com carros e motos, como se estivessem em uma guerra.

 

O Distrito Federal possui, desde 2011, um Plano Diretor de Transporte Urbano e Mobilidade – algo bastante interessante, mas que precisaria passar por uma atualização, tendo em vista as diretrizes da Política Nacional. Por aqui, a frota de veículos cresceu 20% nos últimos cinco anos, chegando a quase 2 milhões de carros circulando pelas ruas e rodovias.

 

A capital, que tem uma geografia vocacionada para o uso de meios de transporte não poluentes, ainda precisa avançar no estímulo à adoção de veículos como a bicicleta. No ano passado, o governo do DF anunciou a intenção de ampliar em 50% a malha de ciclofaixas, com o programa +Bike. Recebemos, no campus Darcy Ribeiro, cinco estações de bicicletas compartilhadas, o que propiciou uma maior adesão das bikes pela comunidade acadêmica.

É necessário, entretanto, que as ciclovias sejam mais bem integradas entre si e com outros meios de transporte.

 

Outro desafio diz respeito ao transporte público coletivo. Os usuários ainda têm dificuldades para encontrar informações mínimas, como o horário atualizado de partidas e chegadas e a duração dos trajetos. O sistema, ao invés de atrair, afasta as pessoas, que acabam privilegiando o carro e, consequentemente, aumentando os engarrafamentos. É urgente rever os hábitos de mobilidade, caso contrário, corremos o risco de ficar literalmente parados nas grandes cidades do Brasil.

 

O que fazer nesse cenário que promete ficar ainda mais dramático com o crescimento urbano e populacional?

 

Parte das respostas está dentro da Universidade de Brasília. Aqui, diversas pesquisas e projetos analisam o sistema viário e a oferta de transporte público ou individual, bem como seus impactos para o cotidiano da população. Nossos professores, estudantes e técnicos administrativos se debruçam sobre as atuais condições de mobilidade do DF e do restante do país e apontam caminhos e alternativas para a superação de muitos de nossos problemas.

 

Questões adicionais, estudadas pela comunidade acadêmica, dizem respeito aos aspectos culturais da ampla adoção de veículos individuais para a mobilidade urbana no DF. Nossos pesquisadores também se dedicam a avaliar de que forma isso influencia o pleno exercício da cidadania. Afinal, uma cidade que só é acessível para alguns exclui outros muitos. É sobre essa riqueza de assuntos que se dedica este número da Darcy.

 

Esperamos que as matérias aqui publicadas sejam inspiradoras e que tragam nova luz aos desafios de mobilidade e acessibilidade das grandes cidades. Boa leitura!.

 

Márcia Abrahão Moura