O ser e o saber

 

Thaïs de Mendonça Jorge, editora

 

“No processo de embaralhamento da sociedade civil, a universidade é chamada a repensar os direitos humanos, a se reposicionar sobre
questões diversas e contraditórias. A formação hoje transcende o âmbito tradicional e assume um papel duplo: de um lado, configurase
como um recurso econômico e como fator de competitividade do sistema do país; por outro, como direito fundamental de cidadania
ou como garantia de liberdade no que diz respeito a um futuro mais possível.”

 

Para Lorenzo Caselli, professor emérito da Universidade de Gênova, com as mudanças ocorrendo cada vez mais rápido, o ciclo
de vida do conhecimento, da tecnologia, dos produtos e serviços se reduz. A experiência adquirida por meio do estudo, do trabalho
e da pesquisa se exaure num tempo muito breve, o que obria as instituições de ensino a ter que oferecer um cardápio variado e
articulado de atividades.

 

Uma ou um jovem, para poder se inserir na sociedade, necessita muito mais do que noções sobre ciência e vida: precisa, como
ensinava Paulo Freire, “aprender a ser”, “saber fazer” e “saber aprender”, ou seja, precisa saber onde e como processar o
conhecimento, relacionando-se com os demais seres humanos. O papel da universidade, então, é o de desenvolver sua capacidade de
ler as mudanças, não sem crítica, e de propor a junção da pesquisa de base, da pesquisa aplicada e das inovações, fazendo nascer uma
nova estrutura de pensamento colaborativo.

 

O mercado deve reconhecer a função da universidade, sua necessidade de autonomia para poder pensar e atender as
exiências da sociedade e do próprio mercado. Existem pesquisas que precisam ser feitas, conhecimentos que devem ser questionados
e redimensionados, mesmo que haja gente que não pense assim.

 

Quando o matemático Galileu Galilei estudava o sistema solar — ele provou que a terra gira em torno do sol, e não o contrário —, muitos
acreditavam que seus estudos eram inúteis. De quebra, Galileu ainda revelou os anéis de Saturno, inventou o termômetro e a luneta.
Enquanto a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern), o maior laboratório de física de partículas do mundo, analisa o quark,
elemento básico da matéria, ainda existe quem afirme que isso não serve para nada.

 

A universidade tem duas funções principais: a de ser uma instituição de pesquisa e a de ser uma base de formação. A produção
e a socialização do saber estão intimamente conectadas. Os jovens que frequentam os laboratórios, as salas de aula, os centros
de investigação, ou se engajam nos projetos de extensão, numa universidade como a UnB, possuem uma ideia de futuro e a estão
buscando no dia a dia dos campi. Professores, pesquisadores e técnicos têm que se lembrar que todo aquele que trabalha numa
instituição de ensino é também um educador.

 

Educa para os direitos humanos, instrui para as relações de solidariedade que todos devem ter uns com os outros e
zela pelo ambiente de bem-estar, com racionalidade, respeito, profissionalismo e cultura que deve prevalecer na Universidade.
Para que a Universidade possa cumprir sua missão, precisa que todos — e nisso incluem-se os alunos — trabalhem em propostas
de justiça, dignidade, democracia, cidadania. Esta edição da revista Darcy é dedicada aos direitos humanos a fim de que, para além do
individualismo, se possa refletir sobre a própria existência no planeta e o sentido da palavra universidade.