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As primeiras recordações que Gabriel Graça tem da infância é de sentir-se um menino. Gostava de roupas típicas de meninos, de brincadeiras – social e culturalmente – relacionadas aos meninos. Lembra-se da primeira vez em que se apaixonou. Foi com sete, oito anos, e por uma colega. “Deduzi que era o sentimento que os homens sentem pelas mulheres. Me dei conta do quanto a minha vida seria difícil.”


O garoto foi crescendo e percebendo que homens e mulheres têm espaços diferentes na sociedade. Que as pessoas geram expectativas e determinam comportamentos distintos para meninos e para meninas. “Esperavam que eu ocupasse um lugar no mundo. Um lugar de menina e não de menino.”


Até os 11 anos, Gabriel foi convivendo com essas realidades e suas consequências. Apesar de momentos complicados, conseguia seguir a vida. Afinal, era uma criança e não percebia a dimensão do contexto pelo qual passava. “Tinha a consciência de que me sentia, gostava e queria viver a vida de menino. E era isso.”


As coisas pioraram com a puberdade. Com a menstruação e as mudanças hormonais, o desconforto e o não reconhecimento de identidade com o corpo feminino afloraram. “Quando minhas mamas cresceram, foi uma perda enorme. Eu não podia, por exemplo, tomar banho de piscina só com a parte de baixo do biquíni. A partir daí, não houve um dia em que eu tirasse a minha roupa e não sofresse com o fato de ter peitos.”


Para escapar dos questionamentos e provocações, o adolescente optou por tentar desenvolver um “jeito mais feminino”. Começou a observar a mãe, as tias, as amigas e a imitar atitudes corriqueiras, como a maneira de sentar e de falar. “Funcionou bem e até que consegui escapar do bullying.”


Mesmo com a adaptação forçada, a vida continuava difícil. Seus amigos iam às festas para paquerar, enquanto ele não se sentia à vontade para exercitar sua sexualidade. “Não me reconhecia como menina homossexual, mas também não era menino porque meu corpo era de mulher. Resultado: me dediquei aos estudos.”


Decidiu ser médico. Entrou para a Faculdade de Medicina da UnB em 1985. Quase no final do curso, pediu transferência para a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde se formou. Fez mestrado em Psiquiatria e Psicologia Médica (Unifesp) e doutorado em Medicina Preventiva (USP).


No campo afetivo, Gabriel tentou se relacionar com rapazes. “Não tinha a menor condição, era um esforço inútil”, revela. Sem um corpo masculino, não abordava as meninas. Mas, por iniciativa delas, namorou algumas. Foi casado com uma mulher por 12 anos, embora ressalte dificuldades na esfera da sexualidade por não se sentir confortável com o próprio corpo.


Procurou, então, o psiquiatra Sérgio Almeida, que foi franco. “Você é transgênero. Não dá para mudar sua cabeça. Você precisa mudar seu corpo.” Pela primeira vez, Gabriel Graça considerou fazer o tratamento e a cirurgia para redesignação sexual. Tal decisão veio em 2013, quando era professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília. O docente iniciou a reposição hormonal em 2014 e, até o momento, realizou duas das quatro etapas do procedimento de transgenitalização.


“Era um sonho ter um corpo consonante e harmônico com a forma como eu me sentia e com a minha identidade de gênero. Mas parecia tão difícil. A professora Graça deixaria de existir para aparecer outro docente que, naquela época, não sabia exatamente quem seria”, desabafa.


Gabriel chegou à conclusão de que não poderia ficar refém do medo. “Sou psiquiatra. Falo para meus alunos sobre a importância de serem felizes. Chegou a hora de tomar uma decisão que, de fato, era de suma importância para minha saúde mental.”


Então, conversou com sua companheira. Ela compreendeu plenamente a situação, mas ponderou que havia se casado com a Graça. Por isso, a união acabaria. Separaram-se em agosto de 2014. Também falou com sua família. “Eles foram muito acolhedores.”

 

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Começou o tratamento quando era coordenador da graduação em Medicina na UnB. No mesmo ano, o professor Paulo César, à época diretor da Faculdade de Medicina, perguntou a Gabriel se não era a hora de ele, de fato, assumir sua identidade. “Fomos para a cerimônia de acolhimento dos calouros. Era início de semestre. Ele me apresentou como Gabriel, professor e coordenador da graduação. Fiquei muito emocionado.”
A partir daí, o professor sentiu o Gabriel com toda sua naturalidade e tranquilidade. “Chamei os funcionários, os técnicos, contei minha história e falei que estava assumindo meu nome social e minha condição. Agradeci a sorte de estar num ambiente de respeito e acolhimento.”