carlos ferreira

 

A poucos metros da Faculdade de Planaltina (FUP), estudantes, técnicos administrativos e professores fazem de um boteco ponto de encontro nas horas vagas. Às 9h, o Bar do Carlinhos já está de portas abertas para receber a comunidade para acaloradas conversas teóricas e momentos de descontração.


Enquanto isso, o dono do estabelecimento, Carlos Ferreira da Silva, conhecido pelo diminutivo, cuida de assuntos importantes, sentado em uma das salas de aula da FUP. Entre eles, projetos para auxiliar e fortalecer pequenos produtores rurais da região na ampliação do acesso e da participação em políticas públicas e na organização dos meios produtivos, com base na sustentabilidade. “Temos construído esse link para conscientizá-los de que existe um processo de produção que pode ser menos dependente dos pacotes tecnológicos, que oneram o custo dos produtos e diminuem o lucro das famílias”, argumenta Carlinhos.


Desde 2014, em suas manhãs e tardes, ele troca o balcão do bar por uma cadeira no curso de Gestão do Agronegócio. Trabalhar e morar próximo ao campus da UnB foram o estímulo que faltava para decidir ingressar no ensino superior, sonho alimentado desde a adolescência, mas só concretizado após os 40 anos. “Na época, não sei se por questões políticas ou por falta de inclusão social, as pessoas que moravam na periferia dificilmente conseguiam entrar em uma universidade pública de qualidade.”


Carlinhos foi um dos moradores a participar ativamente das discussões sobre a instalação da UnB na região, em 2006. “Vimos acontecer um sonho do Darcy: ver a Universidade se expandir pelas periferias do Distrito Federal.” Da porta de sua residência, viu o campus nascer e crescer. Aproveitou para lucrar com o próprio negócio. Iniciadas as atividades da instituição, teve a ideia de transformar a garagem de casa em um bar para movimentar o pacato comércio local.


O espaço, também uma loja de conveniência, atraiu a atenção da comunidade acadêmica, que aparece ali para almoçar um bem servido prato feito e beber uma cerveja gelada. “Passamos a ter um convívio muito bacana. Mesmo os que não frequentam o bar passam na porta e dão um alô.” Com parte da fiel clientela, Carlinhos também divide o tempo, seja na mesa do bar, na sala de aula ou nos conselhos universitários, discutindo trabalhos de disciplinas, iniciativas do centro acadêmico de seu curso, do qual deixou a presidência em 2016, além de melhorias para o campus.


Ele admite não ter sido fácil iniciar a trajetória como estudante a essa altura da vida. Hoje, se vê tão envolvido nesse universo que conciliar a rotina familiar e os negócios tornou-se o maior desafio. Depois de um dia de estudos, cuida do bar até as 23h e continua a jornada com um serão extra para cumprir as atividades de classe, sacrifício bastante recompensador. Os projetos incluem um sonho: “Um dia quero adentrar essas portas como docente”.