02032017 profjoseleonardoferreira108 betomonteiroEstantes repletas de livros sobre astrofísica, fotos de viagens a projetos espaciais internacionais e uma porção de equipamentos utilizados em pesquisas astronômicas. A paixão do professor José Leonardo Ferreira pelo que está além da Terra é observada em cada detalhe do Laboratório de Física de Plasmas da UnB.


Gosto particular que carrega desde a adolescência, quando lia, entusiasmado, os livros de ficção científica de Arthur C. Clarke. “Gostava muito dessa coisa de espaço. Tinha um tio que me incentivava muito na leitura”, relata o mineiro, natural de Uberaba, aniversariante na mesma data da inauguração da UnB – 21 de abril.


A chegada do homem à Lua, em 1969, foi o marco histórico e o pontapé na decisão de trilhar caminhos na física, focado nas questões espaciais. O interesse era tanto que, antes mesmo de entrar para a UnB, ainda aluno do ensino médio, circulava pelo campus Darcy Ribeiro empenhado na montagem de um antigo telescópio do Instituto de Física, às traças pelo desuso. Bastou a vontade de entusiastas como ele para a retomada do antigo Observatório Astronômico, projeto idealizado na década de 1960, mas à época desativado.


Doado pelo governo norte-americano, o telescópio ganhou uma rústica construção de madeira para que pudesse ser deslocado sobre trilhos. E lá ia o equipamento nas observações mato adentro. Nas precárias instalações do Observatório, alojado onde hoje se encontra o posto de gasolina ao lado da Maloca, José Leonardo passava longos períodos a se deliciar com estrelas e planetas.


“O equipamento estava um pouco degradado. Tivemos que fazer uma limpeza. Saiu essa reportagem na Veja e o Azevedo (reitor à época) não gostou, porque simplesmente dizia que a Universidade não estava cuidando de equipamentos tão caros.” Em tempos de ditadura, o fato levou o coordenador do projeto, professor da UnB, à demissão. “Com isso o projeto foi fechando. Não havia quem ficasse responsável.”


Em 1977, José Leonardo, já graduando na UnB, participou de greve estudantil culminante na invasão militar no campus. Viu vários colegas suspensos ou presos por lutar contra o regime. Ele, por sorte, escapou. “A polícia tinha uma lista com os nomes das pessoas dos movimentos estudantis”, relata o docente, então representante dos alunos da Física. Lembra-se até de policiais infiltrados na Universidade. “Você via que os caras eram soldados. Estudantes não têm os braços fortes assim”, brinca.


02032017 profjoseleonardoferreira67 betomonteiroNão queria ser o próximo a parar atrás das grades. Antecipou a conclusão do curso e fugiu para São Paulo para realizar o mestrado. Deixou para a irmã a missão de pegar o diploma. Quase duas décadas se passaram. Em 1994, José Leonardo retornava à UnB como professor, após adquirir vasta experiência com estudos na área de física de plasmas no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Viu um ambiente bem diferente de 1977. Havia liberdade.


Envolvido no desenvolvimento da área experimental da astrofísica, teve um insight para inovar o campo na UnB: por que não reviver o Observatório Astronômico? “Tinha muita gente que achava maravilhosa a ideia de retomar a astronomia na UnB.” Dessa vez, o local escolhido foi a Fazenda Água Limpa, no Núcleo Rural Vargem Bonita, onde o céu, mais límpido, favorecia a observação dos fenômenos espaciais. Foram quase 12 anos para tirar a ideia do papel. Batizou o espaço, inaugurado em 2016 sob sua coordenação, com o nome do astrônomo, engenheiro e geólogo Luis Cruls.


O projeto é apenas uma das paixões do professor, que dedica a vida à “divulgação da astronomia” entre estudantes da UnB e de escolas públicas. No laboratório, colabora com pesquisas internacionais para o desenvolvimento de propulsores a plasma utilizados na emissão de sondas espaciais.


Mais do que um hobby, a astronomia é o que ainda prende José Leonardo à UnB. Ambiciona ver, antes da aposentadoria, a área se consolidar na Universidade. “A astronomia é uma das primeiras ciências, tão velha quanto a matemática, e envolve diversas áreas. Todas as grandes universidades do mundo têm astronomia.” Enquanto idealiza a criação de um curso em futuro próximo, continua a disseminar o fascínio interestelar entre seus aprendizes.