20032017 salsa36 juliominasi“A dança me pegou de um jeito que realmente não consigo descrever. É como se eu sempre estivesse vendo a música como uma coisa isolada e, de repente, vi que a dança era como fazer música com o próprio corpo”, exalta Ian Brasil Reis, engenheiro mecânico formado na UnB. Dançar se tornou uma maneira de descobrir potencialidades corporais e de se envolver mais com a música. A experiência rítmica vem de uma apreciação intensa já na adolescência, em aulas de instrumentos.


No MASC Central do campus Darcy Ribeiro, em meio a mais de 30 alunos que faziam aulas de casino, uma variação cubana da salsa, Ian descobriu uma paixão efervescente. Em 2014, em seu penúltimo ano como graduando, já cansado da rotina de estudos na Faculdade de Tecnologia, recebeu o convite de um amigo para ingressar em uma das turmas do projeto de extensão Corazón Salsero. Não teve jeito: a alegria envolvente do ritmo o contagiou. “Nunca tinha me envolvido com a dança. Vim para a aula com meu amigo, dois meses depois ele largou e eu acabei continuando”, ressalta.


Os passos descoordenados, sem suingue, aos poucos ganharam cadência, equilíbrio e “sabor”. “Não existe pessoa tão torta que não possa dançar. Se você quer, você realmente aprende.” Pés para lá, braços para cá, quadris estáveis, tronco solto. A ginga da salsa tomou conta do corpo e se estabeleceu como terapia, em um período que exigiu de Ian o isolamento social para se focar na conclusão de seu curso.


Aprender apenas a salsa já não era mais o suficiente para ele, que no semestre seguinte se viu matriculado em oito turmas de diferentes ritmos do projeto. O merengue, a bachata e o reggaeton são algumas das opções oferecidas pela iniciativa, existente na UnB desde 2005, hoje com cerca de cem alunos. “O objetivo é difundir as danças latinas no meio universitário. Trabalhamos a cultura latina, a língua espanhola e o aspecto da saúde que a dança proporciona”, explica o coordenador Pedro Mariano de Lima.


Com meses de prática, Ian caminhava para se tornar um exímio dançarino. Assim que graduado, a indecisão sobre seguir carreira na engenharia o fez repensar o futuro. Um resquício de desejo por uma vida mais compassada palpitava, e a dança se concretizou como opção de trabalho. Em 2015, recebeu a proposta para participar do Corazón Salsero no planejamento de eventos e na coordenação de pessoas.


Mas a desenvoltura com a salsa e os outros ritmos, adquirida pela dedicação com maior afinco, também abriu portas para que deixasse a condição de aluno e se tornasse professor no ano seguinte. Tomou gosto pelo ofício e fez-se amigo e parceiro, nesse e em outros projetos, de uma das professoras, a graduanda em Educação Física Laís Cristina Silva Monteiro, de 23 anos.


Assim como Ian, o envolvimento de Laís com o Corazón Salsero se deu primeiramente como aluna, em 2012, ainda caloura na UnB. Chegava a fugir das aulas na graduação para ir ao encontro do som atraente que ressoava pelo campus. A sensualidade, a alegria, a movimentação corporal, a riqueza instrumental das músicas latinas eram elementos diversos que a cativavam e a estimulavam a respirar os ares da dança.


Apesar da facilidade de se expressar corporalmente, os movimentos, especialmente da salsa, eram desafiadores. “A salsa não é da nossa cultura. Tem movimento corporal próprio dos outros latinos. É muito diferente”, considera. Ainda assim, destacava-se entre os demais colegas da turma. Sentia-se muito mais convocada pela experiência com os ritmos do que pelas tarefas da vida acadêmica.


Foi o que a motivou, em 2015, a trocar o curso de Pedagogia – primeira graduação iniciada na UnB – pelo de Educação Física. Na época, já havia se tornado professora do Corazón, após pouco mais de dois anos de imersão em aulas de diversos estilos, os quais passou a dominar com destreza. “Sempre gostei da educação física, mas levava como um hobby. Queria ser professora, só não sabia se era de letras, pedagogia ou o quê. Quando comecei a dar aulas de dança, pensei: a educação física tem tudo a ver”, alegra-se a estudante.


O rodopio para coreografar seu novo destino levou-a, como em uma roda de casino, a aliar a formação ao futuro profissional com a dança. Como docente, não deixou de fazer do projeto um campo de estudo e de maior interação com a comunidade acadêmica. “Quem tem mais experiência vai passando para quem tem menos. A gente sempre aprende um com o outro.”