shirley

 

Inquieta. Ansiosa. Elétrica. Você vai falar, mas ela já sabe, já viu. À primeira vista, pode não parecer, mas você está diante de uma das servidoras mais colaborativas da Universidade de Brasília. Só que ela não pode perder tempo. O deadline do jornal está logo ali. É preciso encontrar um professor para falar às 19h. Aquele artigo necessita de ajustes. Com exclamações, muitas exclamações.


A rotina da relações públicas Shirley Gonçalves não tem monotonia e é isso que a faz seguir na instituição mesmo após ter alcançado os requisitos para aposentadoria. Shirley trabalha na Universidade há 36 anos – ou 13 mil dias, como prefere o sistema do Decanato de Gestão de Pessoas. Ingressou em novembro de 1980, logo após chegar à capital. Não havia na UnB setor dedicado à relação com a imprensa. Eram os últimos momentos da ditadura no país.


Cinco anos depois, a paulistana testemunhou a primeira eleição para reitor e viu a Universidade desabrochar. “Havia efervescência, alegria! Pela primeira vez, pude enxergar a vida no campus. Aí começou nosso caso de amor.” A servidora foi convidada pelo jornalista Hélio Doyle para compor a recém-criada Assessoria de Comunicação. “Entendi a responsabilidade que tínhamos com a imagem da UnB.”


Com os constantes pedidos de fontes por parte da imprensa, Shirley percebeu, também, a necessidade de organizar os contatos dos professores por tema. “Escrevíamos à mão num fichário”, recorda. Hoje, o setor conta com banco de dados e recebe, em média, 400 demandas de veículos locais e nacionais por mês. Quando o programa falha, é a memória de Shirley que salva. “Há pedidos inusitados, como analisar os benefícios de andar pelado ou o que aconteceria se todo o dinheiro do mundo fosse sacado e queimado”, diverte-se.


Ao longo desses anos, Shirley atuou em eventos históricos, como as visitas de Nelson Mandela (1991) e do Dalai Lama (1999). “Mandela havia acabado de sair da prisão. Não conseguimos projetar o número de pessoas. Havia gente por todos os lados, nos telhados, nas árvores. Uma multidão de fotógrafos e jornalistas. Foi emocionante.”


Apesar de ter acompanhado os bastidores de todas as administrações desde 1985, Shirley é bastante discreta. Não revela detalhes nem preferências. Deixa escapar apenas sua admiração pelo ex-reitor Lauro Morhy. “Ele tinha um sentimento agregador, buscava fazer o melhor para a instituição e a sociedade.”


Certa noite na Secretaria de Comunicação, ao pedir retificação numa matéria a um jornalista, a servidora resumiu seus 36 anos de dedicação à Universidade: “Meu trabalho não é para que vocês falem bem da UnB, é, antes de tudo, para que falem a verdade”.