14032017 jacques novion3 juliominasiPelos jardins do campus Darcy Ribeiro, um garoto de ascendência argentina arrisca as primeiras pedaladas ao lado do pai, professor de antropologia, e da mãe, aluna da mesma área. Após mais de uma década, o local se torna palco de sua efervescente militância. Martin-Léon-Jacques Ibáñez de Novion – ou Jacques de Novion, como é conhecido – se considera praticamente nascido na UnB, onde passou grande parte da infância. “A Universidade era minha área de diversão.”


Os pais vieram ao Brasil exilados da ditadura na Argentina. Jacques chega ao mundo com enorme dilema: quem ele era? Havia no íntimo o estranhamento por nascer em país que não o dos familiares. “Queria entender por que na minha casa se falava de um jeito e na rua, de outro.” A identidade híbrida trouxe inquietações, respondidas ao longo da vida de diversas maneiras:

  1. Tornar-se militante: fim da ditadura militar, democracia, nova constituição. Muitas mudanças no país. Com apenas 13 anos, Jacques já estava envolvido nas lutas sociais. “Havia grande anseio das gerações anteriores quanto à liberdade de pensar o futuro da nossa sociedade, o que, de certa forma, alimentava as novas gerações.”
    Aos 16, tirou o título de eleitor, filiou-se a um partido de esquerda, engajou-se em movimentos estudantis e sociais. Queria mais. Em 1999, então graduando de História, assumia a liderança do Diretório Central dos Estudantes da UnB, em gestão batizada pelo clamor de “Honestino Vive”, referência a um dos símbolos da luta contra a ditadura.
    Nem Coca-Cola, nem Ford. O lema era “aproximar os diferentes saberes e conhecimentos”, como idealizava Darcy Ribeiro, em diálogo com os movimentos sociais. “Fomos contrários à velha estratégia de pedir financiamento a grandes empresas para fazer eventos na Universidade.”
  2. Cursar História: da trajetória e da herança antropológicas dos pais tirou a lição: aprender história era conhecer-se um pouco mais. Apaixonou-se pela disciplina ainda criança. “Lembro de me pedirem, no primeiro grau, para fazer um trabalho sobre a escravidão no Brasil.” Foi o impulso para a chegada ao curso de História na UnB em 1997.
  3. Revolucionar: 1998. Paisagem já conhecida: os jardins da UnB. Viu ali empipocar o motim de alunos, docentes e técnicos administrativos contra a privatização das universidades públicas. Barracas enfileiravam-se no ICC, onde fora montado o acampamento dos manifestantes. “Vários de nós perderam muitos quilos. Nossa alimentação ficou bastante comprometida.” Mais de três meses de greve. A experiência trouxe aprendizados diversos. Um deles: tão importante quanto se formar na militância, era cuidar do futuro profissional.
  4. Aprimorar a formação: Jacques levou a sério a premissa: “a Universidade forma identidades”. Retornou à UnB depois de graduado para realizar especialização em Bioética e depois mestrado em História. Dali, fez conexão no México para doutorar-se e procurar mais peças que se encaixassem em seu quebra-cabeça identitário. Encontrou a paixão pelos estudos latino-americanos e caribenhos. Hoje é perito no assunto.
  5. Ser docente: contribuir com a formação crítica de alunos foi o compromisso firmado por Jacques na volta à UnB, em 2012. O período afastado o fez descobrir outro espaço. “A UnB hoje tem mais cara de Brasil.” Acredita no diálogo como instrumento para fomentar a diversidade no debate acadêmico. Talvez um dos maiores legados das buscas pessoais. Além da certeza: “A única forma de ser verdadeiramente livre é com o que se carrega na cabeça”.