ENSAIO VISUAL

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Praça dos Três Poderes, Brasília, Brasil, 2000. Praça dos Três Poderes, Brasília, Brasil, 2000. Foto: Ivaldo Cavalcante

  

Texto: André Gomes

 

Brasília, capital do Brasil, cidade bela em seus amplos espaços abertos e na sua arquitetura, até hoje futurista. Divergindo de sua concepção vanguardista, a metrópole não é exceção à realidade do país, o nono mais desigual do globo segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O contraste entre os grandes espaços imaginados por Lucio Costa, os traçados de Oscar Niemeyer e a miséria de quem sobrevive nas suas ruas não entra nos cartões-postais, tampouco nos registros oficiais.

 

Quem vive a cidade no seu dia a dia, enxerga, além dos monumentos, uma outra realidade. Apesar de o Distrito Federal (DF) ter, em 2020, o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o contraste entre as diferentes realidades sociais é similar ao de outros centros urbanos, como Rio de Janeiro ou Recife. O registro da desigualdade, da miséria e da injustiça presentes na cidade é encontrado no trabalho do fotojornalista Ivaldo Cavalcante.  

 

Nascido em Cratéus, Ceará, em 1956, Ivaldo chegou à Taguatinga, cidade do Distrito Federal, aos quatro anos de idade. Passou por várias ocupações, como engraxate e vendedor de jornal, até se encontrar no fotojornalismo. Trabalhou em veículos como o Jornal de Brasília, Correio Braziliense e Hoje em Dia. Também publicou livros e dirigiu os curtas-metragens documentais O meu nome é Fábio (2014) e Qual o seu lugar no mundo? (2015). Sua trajetória foi reconhecida com diversas honrarias, como o Prêmio Internacional Rei da Espanha.

 

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O trabalho de Ivaldo dá visibilidade a pessoas em situação de rua, crianças abandonadas, usuários de drogas, vítimas de abuso policial, da exploração sexual e outras tragédias cotidianas. O equilíbrio entre a dureza da realidade e a sensibilidade com a qual capta as imagens é um convite à reflexão sobre como o sofrimento humano é tão imageticamente forte e ao mesmo tempo tão naturalizado no dia a dia.

 

Ivaldo não está mais na lida diária do fotojornalismo, mas continua atuante em questões sociais. Em 2002, ele criou, em Taguatinga, o espaço Olho de Águia, galeria e ponto de resistência cultural que opera além dos limites da fotografia com exposições de artistas plásticos, saraus de poesia, performances, lançamentos de livros e música. As próximas páginas convidam o leitor a enxergar a capital para além das belezas que estampam seus cartões postais.