22032017 meninas escola publica4 juliominasiNa vida, trajetórias distintas. Na luta feminista, ideias que dialogam. A professora Adriana Ibaldo e a doutoranda Lilah Fialho, ambas do Instituto de Física, nunca desenvolveram projetos juntas, mas abraçam a mesma causa. Querem mais espaço para as mulheres na área de Exatas.


Aos 25 anos, Lilah acabou de entrar para o doutorado. A construção de uma carreira acadêmica foi surpresa até para a própria estudante, que demorou a se encontrar na física. “Quando passei no vestibular, aos 16, estava muito cansada. Não queria começar o curso, minha mãe me obrigou.”


Em termos acadêmicos, o currículo de graduação deixou a desejar. Reprovou duas vezes em física 1 e 2. Foi desligada da Universidade. Quando reintegrada, o coordenador a questionou sobre expectativas. “Não sabia se era o que eu queria, mas eu gostava. Se comecei, iria terminar”, insistiu.

 

O caminho da professora Adriana foi um pouco diferente. Natural de Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande do Sul, veio com os pais para Brasília ainda pequena. As áreas de Ciências e de Exatas sempre foram objetos de seu encantamento. Optou por fazer Química, na UnB. “Dei sorte de o curso ser o que eu esperava no ensino médio. Identifiquei rapidamente o que gostava e tive oportunidades de seguir com pesquisas na área.”

 

adriana ibalboAinda na graduação, Adriana se impressionava com o alto índice de evasão dos cursos de Química e Física. Na visão da pesquisadora, são muitas as razões para a desistência. Déficit de conteúdo da formação básica, desumanização de processos e frustação de expectativas. “Muitas vezes, o aluno entra com uma idealização que não corresponde à realidade do curso.”

 

Para Lilah, a desmotivação inicial se deu por uma combinação de fatores. “Era muito jovem, não sabia exatamente o que queria. Há muitas barreiras no caminho e, no geral, pouco apoio.” Muitos não seguem o fluxo curricular e, com isso, a convivência com os colegas diminui. “Em vários casos, também há grande distanciamento entre estudantes e professores”, aponta.


Curiosamente, foi um docente que despertou o olhar carinhoso da aluna para a física. “Sabe aqueles professores apaixonados? Que ama o que faz? Ele é assim”, lembra com carinho de Joaquim José Soares Neto. À época, Lilah pediu para participar de um de seus projetos de pesquisa. “Achei que ele iria recusar por conta das minhas notas, mas ele topou. Na metade da graduação, enfim, comecei a me envolver com a área.”

 

Gostou tanto que emendou o mestrado e, agora, o doutorado. Recentemente, começou novo projeto. “Queria participar de algo social. Vi, no Facebook, a postagem de uma ex-aluna do curso de Física na UnB – Erica Oliveira – com a ideia de oferecer monitorias para alunas de escolas públicas. Conversamos e montamos a proposta.”


Pela internet, reuniram monitoras voluntárias com o intuito de ir aos colégios e tirar dúvidas das garotas em física, química, matemática, ciências e biologia. Surgia, assim, A menina que calculava. Até o final de março de 2017, o projeto somava 68 monitoras, 15 escolas cadastradas e 120 alunas atendidas por semana.


A construção da invisibilidade das mulheres na sociedade e na própria ciência é algo que incomoda Adriana desde a adolescência. Pensar em ações voltadas para esse público tornou-se obrigação moral quase inevitável.
“Situações reais de sexismo e assédio ocorriam comigo, com amigas, com colegas de laboratório, com alunas. De fato, você começa a perceber que homens e mulheres não têm oportunidades iguais.” Na perspectiva de contribuir para mudar esse cenário, resolveu se dedicar às discussões de gênero.


Além de abrir vários espaços (em aulas, seminários, colóquios, palestras e vídeos) para problematizar questões sociais, coordena projetos de pesquisa e extensão voltados para meninas que se interessam e se identificam com a área de Exatas e para formação e fortalecimento da carreira de mulheres que optaram pela física.


Fundou ainda um grupo no Instituto de Física com foco em estudos de gênero. Atualmente, cinco pesquisadores, dez alunos – bolsistas e voluntários – e cinco egressas atuam na iniciativa de divulgação científica e desenvolvem ações junto à comunidade do Distrito Federal. Uma das ex-integrantes do grupo, à época estudante do ensino médio e bolsista de iniciação científica júnior, faz Física na UnB.


Para alunas do ensino médio, são ministradas oficinas com a realização de atividades experimentais para despertar o encantamento pela física. A interação com as mais jovens também é feita por meio de conteúdos postados no Portal da Menina na Física, no Facebook.


O que move Adriana: “Mostrar para as garotas aonde elas podem chegar, e oferecer um bom leque de opções para que, realmente, possam escolher livremente o que lhes agrada”. E Lilah completa. “Minha mãe me ensinou que posso fazer o que eu quiser. Quero ver meninas crescendo na matemática. Que se sintam mais confortáveis para optar por cursos nas áreas de Exatas. Que tenham confiança em si mesmas.”