10032017 quilombo48 lgpradoEstar na Universidade de Brasília foi acontecimento do destino na vida de Francisco Beserra. Ao terminar o ensino médio, o plano era ir para São Paulo estudar Geografia e fazer curso técnico de teatro. Não passou no vestibular e adiou a tentativa de entrar para a faculdade.


Morava na periferia de Aparecida de Goiânia, em Goiás. Trabalhava em um shopping. Começou a pensar na UnB inspirado em um amigo, que estava na Universidade. Inscreveu-se, então, no vestibular. Não foi liberado do emprego para fazer a prova de habilidade específica em Artes Cênicas. Aprovado na segunda opção de curso, entrou para Geografia (2/2011).


Hoje com 24 anos, o rapaz acredita que o caminho aleatório, pouco planejado, não poderia ter sido melhor. “Me sinto totalmente UnB. A história dessa Universidade é inclusiva e memorável. A forma como foi pensada me inspira”, aponta.


Na capital federal, o primeiro enfrentamento foi a discrepância social, financeira, cultural e ideológica do universo que passou a integrar. De origem popular e ingressante por cotas, teve o apoio de programas de assistência estudantil desde o início da graduação. Recebia auxílio moradia e dividia aluguel com outras pessoas, na Asa Norte. “Viver em Brasília, imerso em um ambiente social ao qual não pertenço, é uma experiência interessante. Eu sou da periferia, onde todo mundo trancava os portões. Morar numa SQN é intercâmbio de classe.”


A impressão do goiano era de que ele, agora, convivia com os filhos das patroas de sua mãe, trabalhadora doméstica. O contexto despertou-lhe novo olhar sobre sua identidade, sua comunidade e sobre como a Universidade tem – ou pode ter – forte impacto social. “O que fazemos aqui é digerido nas periferias, mesmo que a galera não seja acadêmica. O conhecimento não tem sentido só como resposta numa prova ou como artigo.”


Na trajetória acadêmica, o estudante se distanciou da Geografia e se aproximou da Geologia. Teve contato com o Museu de Geociências e a Paleontologia. Descobriu a arqueologia, a antropologia física e, por fim, mudou o curso. Agora está no último ano de Antropologia.


A negritude é sua mais recente descoberta e identificação. Integra o Quilombo, diretório acadêmico que discute e luta pela ascensão, participação e protagonismo de pessoas negras na Universidade. “Estudantes negros e periféricos e alunos brancos de classe média chegam aqui por caminhos muito distintos. Me sinto poderoso em saber que, com articulação e resistência, posso estar no mundo e pertencer ao que eu quiser.”


Quando começou o curso de Geografia, há quase seis anos, Francisco projetava um futuro diferente. O cenário mais provável era o retorno para Aparecida de Goiânia e uma carreira de professor da educação básica. Hoje, a perspectiva é acadêmica. Mais que o mestrado e o doutorado, quer ocupar espaços. Universidade, docência, pesquisa. “Me sinto tão poderoso e ambicioso que a UnB para mim foi só o começo.”