23032017 alunamaecaseso17 betomonteiroThalita Sampaio tem 19 anos. Há menos de um, foi mãe. Descobriu a gravidez um mês depois de entrar na graduação em Serviço Social, em agosto de 2015. A ideia era pedir exercício domiciliar com a chegada de Arthur Kauan.
No entanto, a rotina ficou cada vez mais cansativa – deslocamento diário de ônibus, calor, estudos, desconfortos típicos do final de gravidez. Em abril, sua mãe de criação (avó paterna) caiu e precisou ser internada. “Ficava com ela no hospital. Seria difícil continuar o semestre. Então tranquei. ”


Arthur nasceu em maio de 2016. No mesmo mês, a avó sofreu um infarto, falecendo em julho. A jovem foi para a casa da mãe biológica, no núcleo rural do Gama, a cerca de 50 km da UnB. Voltou a frequentar as aulas no segundo semestre de 2016, junto com o filho. “Entre outras coisas, era complicado de ônibus, na chácara não pegava celular, internet. Com a ocupação da Universidade pelos estudantes, desisti das disciplinas.”


No início deste ano, a aluna foi morar com o pai da criança e retomou a graduação. Atualmente, eles dividem o mesmo teto, mas estão separados. “É difícil conciliar casamento, casa, filho e estudo. Pouca gente entende isso”, desabafa.


Para assistir às aulas, acorda às 5h30. Arruma-se, troca a criança e sai com mochila e carrinho para pegar dois ou três ônibus, dependendo do dia. “Trazê-lo é uma necessidade. Não tenho com quem deixá-lo ou como pagar babá ou creche.”


Ressalta que seus professores são compreensivos, mas sabe de outras mães que enfrentam resistência. E reclama da falta de infraestrutura para os pequenos. “É papel social de uma universidade pública oferecer apoio às mães.”

 

24032017 ida15 juliominasiTrajetórias distintas, dores e delícias que se aproximam, desafios que se encontram. A necessidade de espaços adequados para as crianças também é uma das questões colocadas por Camila Varela, estudante de Letras-Francês. Aos 27 anos, é mãe de Nawê. “A UnB não é pensada para acolher crianças e, se elas ficam excluídas do ambiente, suas mães também estão.”


A aluna é doula voluntária e trabalha como professora de português para estrangeiros. Engravidou aos 25 e, embora não tivesse planejado, a maternidade sempre foi um desejo latente. O “choque de realidade e a vivência de dificuldades concretas” vieram junto com o nascimento de Nawê, hoje com 2 anos.


Formada em Letras – Português do Brasil como Segunda Língua, terminou a primeira graduação grávida. Queria seguir no mestrado, mas, com filho pequeno, preferiu adiar os planos. “Tranquei o curso para parir e depois estava aqui com ele para começar a minha segunda habilitação”, detalha.


Intrigada com as dificuldades do dia a dia, uniu-se a outras mulheres, e juntas articularam uma rede de apoio. Além da ajuda mútua, pretendem apresentar reivindicações à Universidade. Entre elas, espaço para acolher crianças, fraldários, permanência de grávidas e mulheres com filhos na Casa do Estudante, preferência nas matrículas em disciplinas para estudantes-mães e que filhos de servidores e alunos paguem o mesmo preço dos pais no Restaurante Universitário – hoje, maiores de dois anos têm que pagar o valor cobrado a visitantes.


cristina dunaevaA professora Cristina Dunaeva também participa do grupo. Ingressou na Universidade em 2015 e ministra aulas no curso de Teoria Crítica e História da Arte (VIS/IdA). Nasceu e cresceu na Rússia, mas veio para o Brasil em 1999. Engravidou de Pedro Uaná, hoje com 8 anos, quando fazia o doutorado. “Foi muito difícil. Meu trabalho de campo era na Rússia, tive que levá-lo comigo quando ele tinha seis meses.”


Cristina reitera que a percepção do quanto as mães são excluídas socialmente chegou com a maternidade. “Somos completamente invisíveis e silenciadas. Muitas vezes, é impossível trabalhar, estudar e cuidar da criança. Mecanismos institucionais para garantir direitos a essas mulheres são imprescindíveis.”


Às mais jovens, deixa um recado. “É difícil. Sejam otimistas. Lutem. Se as coisas não mudarem, continuaremos resistindo para que as pessoas nos percebam.”