SauloMachadoOs sons ao redor ecoam abafados, quase inaudíveis. A rubéola, adquirida no ventre materno, trouxe marcas resistentes ao tempo. Saulo Machado nasceu praticamente surdo. No ouvido esquerdo, a perda auditiva tornou-se aguda com o passar dos anos. O direito foi afetado parcialmente, daí o auxílio de um pequeno aparelho. Ainda assim, prefere a leitura labial para compreender os interlocutores. “Usar o aparelho é como usar óculos, aparelho dentário ou cadeira de rodas.”


Ainda criança, comunicava-se com tropeços na fala, desenvolvida com a fonoaudióloga. “Quando pequeno, usava uma caixinha, que parecia um microfone, e um fone de ouvido. As pessoas ligavam outro fone para conseguirem falar comigo. Usava somente com os professores. Tinha muita vergonha.” Aos 12 anos, o contato com novo universo linguístico o fez ir além das adversidades na convivência escolar. “A língua brasileira de sinais mudou a minha vida.”


A experiência na escola pública abriu portas para se aproximar de outras crianças com deficiência auditiva. Hoje, professor da UnB, repassa tal expertise a alunos surdos e futuros docentes que lidarão com realidades diversas nas escolas. Longo caminho para chegar até aí.


Apaixonado por cinema, almejava graduar-se na área fora do país. “Faço críticas como hobby.” A rotina impede a prática constante do hábito. Precisava aprimorar outro idioma. Em 2006, ingressou no curso de Letras-Inglês, em faculdade particular. No mesmo ano, Saulo descobriu a oferta, pela Universidade Federal de Santa Catarina, da primeira licenciatura semipresencial em Letras-Libras do país, com um dos polos na UnB. Entrou para o curso.


Trajetória cinematográfica adiada, outras afeições seriam despertadas. Concluídas as graduações, a sala de aula se tornou outra vez o destino, porém como educador. Retornou à UnB como substituto no curso de verão de Libras, em 2011. O mestrado em Linguística foi o passo seguinte e crucial para definir novos rumos à vida. Seguiria carreira como professor.


Como bom cinéfilo, frequentava festivais de cinema em Brasília, como colaborador nas legendas para surdos, palestrante ou espectador. Nas andanças, algo o deixou intrigado. Assistia à abertura de renomado festival, quando percebeu a intérprete de Libras traduzir as falas dos anfitriões soletrando o alfabeto. “Não tinha sinais específicos para cinema. O público surdo não conseguia prestar atenção porque a soletração confunde muito.” Lá estava a ideia de pesquisa do mestrado.


Desenvolveu termos próprios do vocabulário cinematográfico em Libras, a partir de neologismos, com a intenção de “difundir entre os intérpretes ou atores surdos”. O professor pretende avançar na temática com o doutorado à vista e agora como concursado da UnB. Acredita no espaço acadêmico como ambiente de inclusão. Para Saulo, o sonho de ver a Universidade para Todos – título de seu primeiro curta-metragem – tem se tornado realidade. “A UnB mostrou uma potência muito grande para receber o surdo.”