16032017 rawlingsonserio36 lgpradoPostura séria, conversa tímida. Desconfiado, Rawlings Onserio resiste a posar para a foto. Surpreendentemente, a conversa flui sem demora e Haffaz – como é chamado pelos amigos – revela-se mais descontraído do que as aparências. O apelido é alusão à personagem principal da comédia O Ditador (2012). O enredo do filme e a (mínima) semelhança física entre o calouro e o tirano não sustentam a referência. Então, o jovem de 19 anos esclarece: “Dizem que somos engraçados”.


Haffaz nasceu em Nairóbi, capital do Quênia, onde estudou até o ensino médio. Descreve que teve uma vida normal, com amigos, videogame e música. “Nunca fiz coisas para ser preso. Acho que sou gente boa.” Preferiu não detalhar sua realidade financeira, mas afirma que “não pode reclamar de dinheiro”. Os pais trabalham para o governo do país africano. O irmão mais velho formou-se em Economia na Nova Zelândia.


O pai de Rawlings viu, no jornal, um anúncio de intercâmbio para o Brasil, desafio interessante para o estudante que queria se formar em Relações Internacionais (REL). O garoto concretizou sua vinda por meio do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), parceria entre universidades públicas e os ministérios das Relações Exteriores e da Educação. A UnB integra a iniciativa desde 1994 e já recebeu 340 estrangeiros – atualmente são 44 alunos atendidos.


Durante um ano, Haffaz fez curso de português em Salvador e, desde fevereiro de 2017, está na Universidade de Brasília, onde REL é referência na América Latina. Bom leitor, o intercambista enfatiza que sabia várias coisas sobre o Brasil. “Na primeira reunião na Bahia, nos perguntaram qual a capital federal e quase todo mundo dizia Rio, São Paulo. Levantei a minha mão e dei a resposta correta”, orgulha-se.


O queniano conhece nomes como Juscelino Kubitschek, Lula e Cazuza. Mas o estilo do cantor não é o seu favorito. “Gosto de rap tipo Eminem e Kanye West.” Com inclinações por brasileiros como Racionais MC’s e... Wesley Safadão. “É nosso segredo. Não é bom para o meu currículo. E se falar que eu danço, esclareça que é muito ruim”, brinca.


Aprender o português não foi fácil para o estudante. No início, falava apenas com os amigos africanos ou com pessoas que entendiam inglês. Com o tempo, começou a praticar. Assistia a filmes com legendas em português, tinha uma boa professora. “O mais difícil é a conjugação dos verbos. Foi estranho”, admite.


Rawlings acredita que a graduação em Relações Internacionais lhe oferecerá oportunidades para atuar em todo o mundo. Todavia, reconhece que terá árduo caminho. “Nunca achei que seria fácil, terei que estudar muito.” Já conhece alguns prédios da Universidade e gosta da comida do Restaurante Universitário. Lembra o nome de Darcy Ribeiro, mas admite não conhecer sua história. “Achei um nome chique, vou procurar saber mais.”


Se perdeu algumas vezes em Brasília, cidade “mais diferente que já conheceu”, e ainda não se acostumou à lógica de endereços e quadras. Atualmente, mora na W3 Norte com um amigo. “Em Salvador, basta pagar aluguel. Aqui é muita burocracia. Mas encontrei um bom lugar.”


À vontade, evita fazer projeções. Diz ter quatro anos pela frente e busca opções abertas. “Sou um cidadão mundial, quero meu diploma, ganhar experiências e dinheiro. Posso até me casar com uma brasileira, quem sabe.” Ao se despedir, deixa um pedido: “Me faça um rockstar nessa entrevista”.