16022017 marco vigilancia3 juliominasiEra fim de tarde no bloco B da Casa do Estudante, no campus Darcy Ribeiro. O vigilante Marcos Valério Gonçalves aproveitava a folga para encontrar namorada do curso de Antropologia. Acabaram estendendo o encontro romântico madruga adentro. As horas correram.


Logo o sol raiava nas janelas do prédio, quando ele saía do local em direção à Coordenadoria de Proteção ao Patrimônio da UnB para iniciar seu turno. Os chefes da vigilância já o aguardavam para um interrogatório. “Marcos Valério, o senhor quer se demitir ou quer que a Universidade te mande embora?”, abordou-o sem delongas um dos responsáveis pela área. Sem entender o motivo da rispidez, rebateu: “Nenhum dos dois. Eu quero saber o que está acontecendo”.


A justificativa para o motim se fez evidente. Eram proibidos relacionamentos amorosos entre funcionários e alunos da UnB. Em plena década de 1980, esse era, para Marcos, claro resquício do autoritarismo oriundo da ditadura. Sabe-se lá como, o caso chegou aos ouvidos dos colegas. “O senhor foi visto saindo exatamente às 7h45 da portaria do bloco B”, relatou um dos membros da chefia. “Isso não é fofoca e o senhor vai ser demitido.”


Diante da ameaça, Marcos não recuou. “Tudo bem, teremos um funcionário demitido e uma estudante jubilada. Se eu for demitido, vou percorrer todos os centros acadêmicos, conversar com todo mundo para manter o nosso relacionamento. Eu estava de folga e não acho que uma coisa tenha a ver com a outra”, contra-argumentou.


Para completar o revide, alertou que acionaria advogados e meios de comunicação. No final das contas, chegou a um acordo com os chefes. Poderia apenas cumprimentar a aluna enquanto estivesse fardado. Recomendaram que não fosse visto em cenas amorosas no campus, mesmo fora de seu turno. Não queriam que ele “servisse de mau exemplo”.


Muitos anos se passaram desde o ocorrido. O namoro não sobreviveu, mas a história de Marcos com a Universidade trouxe outros altos e baixos. Servidor desde 1982, ele foi o primeiro vigilante da casa a ter curso superior – graduou-se em Administração. Na época, batalhou para que técnicos administrativos como ele tivessem a oportunidade de realizar a formação enquanto trabalhavam, o que não era permitido. Chegou a fazer especialização em Desenvolvimento Gerencial, na UnB, e mestrado em outra instituição. Além disso, contribuiu com ideias para melhorar a qualidade de vida dos servidores.


Marcos também teve a oportunidade de romper com preconceitos. Lembra-se do primeiro choque com a diversidade do ambiente. Ainda novato, fazia a ronda em um dos estacionamentos do campus. Percebeu ali um sujeito suspeito, com aparência que não lhe era comum – cabelos longos, roupa rasgada, calçados desleixados e bolsa de lado. Era necessário observá-lo.


O rapaz se aproximou de um Opala do ano, o que fez com que Marcos ficasse alerta. Minutos depois, a surpresa: “Para a minha decepção, aquela pessoa cabeluda, com roupa simples e sandália de couro tirou a chave do bolso, colocou na maçaneta do carro e entrou. Ali comecei a quebrar alguns tabus que trazemos de fora para dentro da Universidade”, reconhece.


Durante o longo período em sentinela, o que inclui escalas em finais de semana e feriados, vê de tudo acontecer. O ofício exige cautela para lidar com as diferentes situações. “O vigilante é muito sistemático na sua forma de observar o mundo. Ele observa detalhes”, comenta o servidor, que agora cuida da guarda da Reitoria. Detalhes que fazem diferença em seu papel como mantenedor da paz no campus. “Nós, vigilantes, somos qualificados para participar do processo pedagógico da Universidade. É um dos nossos trabalhos: instruir os alunos”, destaca Marcos. Ele acredita no caráter transformador da academia.