14032017 brunalisboa24 betomonteiro

 

Bruna Lisboa, estudante de Ciências Biológicas, pretende atuar na área de genética. Ela dá aulas voluntariamente em um cursinho pré-vestibular para estudantes de baixa renda. “Um amigo me deu a ideia depois da morte da Lou.”
“Lou” é a estudante Louise Ribeiro (esq.), uma das melhores amigas de Bruna, assassinada dentro de um laboratório da UnB em 2016. O ex-namorado de Louise, Vinícius Neres, a envenenou com clorofórmio após atrair a estudante para a sala sob o pretexto de que iria se matar.


Bruna, de sorriso fácil e expressão plácida, se descreve como alguém que mudou muito após perder a amiga, o que aumentou sua garra de viver. “Não deixo as oportunidades passarem, nem o desânimo me dominar.”


A estudante encara diariamente a rotina de faculdade, estágio, aulas voluntárias e Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic). “Uma das coisas legais sobre a Lou é que ela sempre fazia muita coisa. Se dedicava a tudo e fazia as coisas de forma muito natural. Peguei um pouco disso para mim”, conta.


Bruna, que tem 20 anos e já está no sexto semestre, passou no vestibular enquanto ainda cursava o terceiro ano do ensino médio. Apesar de sempre ter se percebido como uma pessoa esforçada, ela acredita que sua dedicação ficou ainda mais intensa após a perda da amiga. “Aprendi muito com ela e a tomo como exemplo da pessoa que quero ser.”


A estudante passou a incorporar o cuidado ao dia a dia. “Isso vai desde o significado de um abraço até a percepção de que cada momento é precioso. Me atento às coisas pequenas como não fazia antes.” Além disso, Bruna tornou-se mais cuidadosa na percepção das pessoas que entram em sua vida. “Quando tudo aconteceu, fiquei muito surpresa, foi um choque. Jamais imaginaria que ele pudesse fazer o que fez”, relembra.


Bruna e Louise conheceram Vinícius em uma disciplina da qual o rapaz era monitor. Ele passou a fazer parte do círculo de amizades das garotas e namorou Louise por cerca de um ano. “Fizemos uma matéria no verão de 2016 e, assim que as aulas terminaram, eles se separaram.” Para Bruna, na ocasião seria impossível imaginar o estudante fazendo algum mal para a amiga. “Dava para sentir que ele gostava muito dela, era muito atencioso, muito carinhoso. Por causa disso hoje sou mais atenta.”


A vivência de Bruna na UnB mudou após o feminicídio. Alguns lugares, como o vão livre do prédio da botânica, adquiriram significados novos. “No início, não conseguíamos passar por lá, porque as lembranças eram muito dolorosas”, afirma Tainah Barcat, amiga de Louise e Bruna. O espaço servia de ponto de encontro, lugar para jogos, almoço e momentos preciosos. “Passamos um bom tempo sem ter coragem de sentar por lá. Percebemos que a Lou era nossa cola social”, diz Bruna. “E ela tinha os cuidados que hoje eu busco ter.”