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Descendente direta da etnia Baré, Rayanne Cristine Máximo França, estudante do curso de Enfermagem, é uma sobrevivente das armadilhas da vida. Em Manaus, cidade onde morou até os 17 anos, viu a família perseguida após o patriarca, agente de saúde, ter denunciado um esquema de desvio de verbas destinadas à saúde indígena no estado do Amazonas. “Tentaram tacar fogo na minha casa.” Depois de várias tentativas de homicídio, era preciso sair de lá.


Brasília foi o destino delegado à garota. Com a aprovação de seu povo, ingressou em 2009 na UnB, por meio de um convênio estabelecido com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Não se sentia segura ao deixar o lar pela primeira vez. Mas enxergava no rito de passagem para a vida adulta a missão de ajudar a melhorar a precária assistência à saúde indígena.


Se em suas terras fugia de um destino trágico, na Universidade travava outras batalhas: a afirmação da identidade e a garantia de condições mínimas para continuar os estudos. Além do choque cultural, às dificuldades de acompanhar as disciplinas e de se manter com o auxílio socioeconômico recebido da instituição, insuficiente para sua realidade, somavam-se os entraves da experiência acadêmica. “Quando você conversa com outros indígenas, eles dizem que entenderam o que é a palavra preconceito depois que chegaram a Brasília. Quando você sai [de sua comunidade], o diferente é você.”


Ao relembrar certos fatos, os olhos enchem d’água. À beira do leito de morte, a avó fez um último pedido: que a acompanhasse em seus dias finais. As aulas perdidas para despedir-se da anciã, em Manaus, resultaram na reprovação em uma disciplina. Pediu a revisão da menção e entrou com vários processos administrativos para justificar as ausências. Todos indeferidos. Teve que prorrogar a conclusão do curso.


07032017 maloca7 betomonteiroA herdeira Baré viu colegas renunciarem à trajetória universitária por falta de assistência. E outros tantos conseguirem sair da UnB com o diploma na mão, o que credita a conquistas, como a implementação das disciplinas básicas para auxílio desse público. Diante de situações similares, a união a outros indígenas foi o amparo para não se sentir deslocada em espaço tão diverso. “Se não nos fortalecemos enquanto grupo, perdemos muitos. Os primeiros momentos são ruins, dolorosos, mas são totalmente essenciais para aprendermos a usar a Universidade.”


Negava-se, de início, a se envolver com os movimentos sociais (as feridas do passado ainda abertas). Aquela sina, contudo, a perseguia. Quando menos esperava, foi convidada a participar das reuniões da Associação dos Acadêmicos Indígenas da UnB. Não conseguiu recusar a oferta. A militância abriu-lhe portas para lutar por seus direitos.


Logo, Rayanne e outros alunos do coletivo precisavam de um espaço para se sentir mais bem acolhidos. Esboçaram traços precários de um projeto arquitetônico de habitação indígena, levados depois a conhecimento da reitoria. Nascia a ideia do Centro de Convivência Multicultural dos Povos Indígenas – a Maloca –, inaugurado em 2014. Na grande casa, Rayanne encontra colegas oriundos de mais de 20 etnias para estudar, desfrutar de momentos de lazer e realizar seus rituais. E também para discutir demandas da comunidade indígena.


Enxerga ainda muito a fazer para o desenvolvimento de políticas para o grupo. Tem pesquisado o assunto e participado de organizações políticas em busca de respostas. No dilema de seus próximos passos, uma certeza: “Lutar sempre, desistir jamais”.