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No feminismo, uma palavra define a empatia e a aliança sustentada entre mulheres na desconstrução dos processos opressivos. Sororidade. Calha bem à explicação de como se firmaram os laços entre três estudantes de Pedagogia da UnB: Mariana Pirineus, de 22 anos, Amanda Bezerra, também com 22, e Lara Campos Borges, de 19 anos. Havia nas garotas algo em comum, além da graduação.


“Acho que viramos amigas de quem tem ideologias parecidas”, avalia Mariana. A aspirante a pedagoga encontrou Amanda ao passar por situação abusiva dentro de um relacionamento amoroso. Apesar de nem conhecer Mariana à época, a amiga não pensou duas vezes em ajudá-la. “Quando vi o cara levantando o braço para a mina, pensei: isso não está certo. É minha prática intervir.” Amanda se orgulha de ter evitado a agressão.


Os entraves diários no enfrentamento da misoginia – inclusive dentro da própria família – tornaram os ventos favoráveis à chegada de Mariana à UnB, em 2013. O espaço para exercer a liberdade também se tornou profícuo na defesa de seus ideais. Tinha desejo de seguir carreira política como o pai, motivo pelo qual despontou na militância. “Cheguei aqui e me apaixonei. ” No segundo semestre do curso, entrou na disputa da gestão do Centro Acadêmico (CA) de Pedagogia. Sua chapa saiu vencedora. E, com a liderança, apareceu o desígnio de estimular a discussão sobre o feminismo na Faculdade de Educação. “Várias pessoas tentam silenciar as meninas aqui. ”


Tempos depois, aparecia a oportunidade ideal. Em novembro de 2016, estudantes da UnB ocuparam prédios da instituição em apoio às mobilizações nacionais contra cortes de recursos em áreas sociais, como a educação e a saúde. Na Faculdade de Educação, não foi diferente. Com maioria de mulheres à frente das atividades do local, o senso de união feminina se fortaleceu. “Foi super legal, porque o movimento era pioneiro na ocupação. Entravam meninas na segurança, o que não tinha (nos outros prédios). Era uma segurança megabélica”, conta, bem-humorada.


Lembra dos apelidos recebidos após a resolução de conflitos com alguns invasores. Lá vêm as “minas da FE”, uns falavam. Ou as “meninas superpoderosas”. O reconhecimento, todavia, se contrapunha à existência de casos diversos de machismo a sufocar a atuação feminina. Por isso, o Não me calo, coletivo erguido a partir de uma das chapas formadas na eleição para representantes acadêmicos. Atualmente, o grupo conta com dez integrantes.


“Foi um encontro de almas afins, de irmãs mesmo”, resume Lara. A mais jovem das amigas também sofreu com a opressão masculina. Nascida em Ceres, no interior de Goiás, Lara mudou-se para Brasília para cursar o ensino médio. Admite ter afinidade com o feminismo desde a adolescência, mas só na Universidade se sentiu mais madura acerca do tema. “Tinha muitas ideias erradas”, reconhece. Hoje enxerga, com clareza, o legado a ser deixado pelo coletivo: “Unir meninas que estão chegando para deixarmos uma base e isso crescer”.


Entre Medicina, Ciências Sociais e Pedagogia, a última opção prevaleceu. Em 2016, o ingresso na UnB e a integração com as colegas de curso apontaram para caminho similar ao das amigas. Nos corredores da faculdade, Lara, Mariana, Amanda e outras meninas resolveram montar chapa para as eleições do CA. Dessa vez, entretanto, não foram vitoriosas. Nada que as fizesse desanimar.


Assim como as “irmãs”, Amanda acredita que as vivências na UnB – onde ingressou em 2013 –, sobretudo como atuante em organizações estudantis, possibilitaram o reconhecimento da identidade anarcofeminista. “Antes, não tinha muito essa ideia. Sabia que defendia as mulheres e os meus direitos, mas até então não lutava por isso”, comenta a paulista de Santo André, mais conhecida como Haru, nome de personagem de anime pelo qual era apaixonada.


Fortalecer o espaço ocupado por mulheres nos movimentos da Pedagogia foi necessidade encontrada pela estudante. “Tem a luta da militância, mas tem também a luta das mulheres na militância, que é diferente de tudo isso.” Na graduação, Amanda enxergou ainda a chance de contribuir para a mudança da educação no país. Incentivo herdado da professora de literatura no ensino médio. “Quero ser a pessoa que vai fazer a diferença na vida de alguém como ela fez na minha”, afirma. Enquanto não se forma, quer deixar algo de positivo para as próximas garotas a entrar na UnB: “Essa é a luta de vocês, o caminho já foi traçado. Agora é continuar”.