09032017 PeladaServidores3 LGPradoOfutebol é sagrado. Faça chuva ou faça sol. Toda terça e quinta, das 12h às 14h, servidores e terceirizados da Universidade de Brasília se encontram para mais um jogo. E pelada que se preze precisa ter uma referência. Pela habilidade, pela liderança ou pela experiência, alguém sempre assume o posto de dono da bola. Há muitas temporadas, esse lugar é de José Maciel Lima, de 77 anos.


O atleta amador é praticamente prata da casa. Chegou a Brasília em 1960, pouco antes de sua fundação. Na UnB, começou a trabalhar na construção do antigo prédio da Reitoria, em 1962. Além de operário, foi zelador, vigilante, almoxarife, cuidou dos campos do Centro Olímpico. Participa do tradicional futebol dos funcionários há 45 anos, quando tudo começou. Aposentou do trabalho em 1992, mas nunca pendurou as chuteiras.


“Acho bem difícil alguém com tanto tempo de UnB como eu”, orgulha-se. Coleciona histórias da ditadura militar e das invasões policiais no campus Darcy Ribeiro. “Presenciei essas confusões todas. Já me abordaram, me mandaram para uma fila e nos levaram com as mãos na cabeça para a quadra de futebol.” Conta ainda que viu Honestino Guimarães se esconder numa cabine telefônica para não ser pego. “Dessa vez, ele escapou por pouco.”


O grande envolvimento de Maciel, entretanto, é com o futebol. Não é craque, avisa. “Comprei um par de chuteiras na minha vida e foi para aprender a jogar. Como não aprendi, não gastei mais dinheiro”, ironiza. Para provar, lembra de um campeonato em que o treinador preferiu começar a partida com dez em campo e deixá-lo no banco de reservas. “Joguei cinco minutos, só no final. Isso é motivo de gozação até hoje.”


09032017 peladaservidores18 lgpradoNo futebol dos servidores, ele é autoridade. Até arrisca análise técnica dos peladeiros. “Aquele ali chega como um toco, para resolver. Esse aqui joga bem, mas é muito mascarado. O do canto é bom corredor, peca no domínio.” Sem levantar a bola do eleito, aponta até destaque no time: o assistente administrativo Cristiano Araújo. “Não sei se sou craque. Tem dia que jogo bem, outro não. Mas costumo marcar gol todo jogo, é difícil passar em branco”, reconhece o servidor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária.


O corpo não acompanhar o que a cabeça manda fazer está entre as poucas coisas que contrariam José Maciel nas quatro linhas. No entanto, segue empolgado e ainda oferece a receita para tanta energia e jovialidade: “Não tomo remédio. Gosto das minhas plantas e dos meus chás. Meu único medicamento é o futebol.”


Seu novo projeto é espalhar árvores pelo campus. “Plantei quase mil mudas por aí. Ipê, copaíba, cacau, jaca, buriti. Eu mesmo faço a muda e monitoro o crescimento das plantas”, garante. Para isso, o aposentado vem à Universidade todos os dias da semana. Sai de Sobradinho por volta das nove da manhã e só vai embora em torno das três da tarde. “A UnB é minha vida, minha família, quem me deu meu sustento. Meus filhos me falam para parar com essas coisas. Só vou parar quando não conseguir mais.”