16022017 tatianecordeiromedicina1 juliominasi

 

Medicina não era o desejo de Tatiane Cordeiro de Oliveira. “As pessoas não se atrevem a sonhar com algo que sabem que não vão conseguir.” Descobriu a afinidade com a área quando estava empregada em um hospital. Antes, tentara Jornalismo, Letras e Enfermagem – o último na UnB. Nada lhe agradava. Além disso, não tinha condições para permanecer em faculdade particular.


Aos 22 anos, com filha pequena nos braços, optou pelo caminho mais árduo. Passou três anos em cursinho gratuito para entrar na UnB, em uma das graduações mais concorridas do país. A rotina não era nada fácil. “Fazia o cursinho enquanto minha filha estava na escola. Quando ela saía, a levava para dar aula particular.” A jornada ainda incluía o trabalho. O cansaço a abateu. Não tinha forças para continuar no emprego. Com a demissão, se empenhou mais aos estudos, mesmo dependente apenas das reservas antes angariadas. Em 2013, foi aprovada. Boa notícia?


Ingressou no curso de Medicina grávida da segunda criança. O que fazer? Com a barriga maior a cada dia, se deslocava da casa da mãe, em Samambaia, até o campus Darcy Ribeiro. Tempos difíceis. Entrou em depressão. “Reprovei no primeiro semestre, porque era preocupação com as dívidas, a gravidez e o curso.”


Não por isso Tatiane desistiria dos anseios. Nascia, em 2014, o esperado Sócrates. No mesmo ano, conseguiu o auxílio socioeconômico da UnB para sobreviver. O marido, jubilado do curso de Agronomia, passava as tardes a cuidar dos filhos, enquanto estudava para voltar à instituição.


Tatiane não aguentava mais percorrer a longa distância até o campus. Da janela do quarto, um som infernal impossibilitava os estudos. “Dormia quatro horas, no máximo, amamentando e indo para a UnB”. Resultado: mais reprovações. Estava à beira do jubilamento. O revés trouxe a decisão de morar somente com o companheiro e os filhos, próximo à UnB. Lá veio a romaria para se estabelecer em um canto. Morou em quitinete, na Asa Norte, cedida por amigo. Depois no Paranoá. Endividou-se para pagar o aluguel. Vendeu o carro, deixado de presente pelo sogro, para sanar as dívidas e bancar outra quitinete, nos arredores do campus. Foi-se mais de um ano.


Entrou em 2016 com certo alívio. As dificuldades eram menores. Apesar dos sacrifícios, até da vida social, Tatiane projetava um futuro melhor. “Difícil mesmo é entrar. Permanecer é mais fácil.” Os livros são os maiores companheiros na solitária vida acadêmica. Saídas para bares, festas, nada disso é para o seu bolso. “Na prática, me isolo, mas não culpo ninguém.”


O envolvimento com as atividades do curso hoje lhe toma tempo até para conseguir estágio. Em nome do aprendizado, tudo se ajeita. E se a sorte, com a qual sempre conta, não chegar, o lema será “ajustar as contas e viver com menos”.