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Para cumprir sua rotina de treinos, Alexandre Cardoso pedalava da 405 Norte ao Minas Tênis Clube cortando caminho pela Universidade de Brasília. “Um dia, parei para cortar o cabelo e conheci o Chico. Isso em 1973, quando eu tinha 13 anos”, lembra o pesquisador da Embrapa. Na época, Seu Cardoso, pai de Alexandre, também foi fisgado pelo barbeiro. “Ele é ótimo. Só não gosto de uma coisa, vive querendo cortar minha sobrancelha”, reclama o patriarca.


De lá para cá, são quase 45 anos de fidelidade, histórias e fios de cabelo pelo chão. “Chico cortava o cabelo da minha vó, na nossa casa. Raspou minha cabeça quando passei no vestibular. Fez meu corte para o casamento, foi à cerimônia”, enumera Alexandre. A confiança é tanta que a tradição se estendeu para a terceira geração. Matheus Cardoso, hoje com 13 anos, é cliente desde pequenininho.


Francisco Bertoldo de Amorim nasceu em São Miguel, interior do Rio Grande do Norte. Aprendeu a cortar cabelo aos doze anos, ainda em sua terra natal. Em busca de oportunidades, veio para Brasília em 1967, com 21 anos. Seu primo arranjou-lhe um emprego com o barbeiro da UnB. Desconfiado, Chico aceitou. “A moda era barba e cabelo grande. Achei que isso não daria dinheiro.” Então, arrumou outra ocupação e continuou como barbeiro nas horas vagas.


O potiguar também foi do quadro da UnB, na década de 1970. Cuidava das piscinas do Centro Olímpico. “Eram as águas mais bem tratadas do Distrito Federal. Fazíamos análises três vezes ao dia.” Entretanto, nunca deixou totalmente a barbearia. Até que o dono do estabelecimento lhe ofereceu o local, ele “juntou um dinheirinho” e conseguiu o seu negócio.


23022017 barbeariachico39 betomonteiroEm 50 anos de Universidade, viveu muita coisa. “Quando cheguei, o ICC não estava finalizado. Não tinha a Faculdade de Medicina, a de Tecnologia, a Biblioteca, a Reitoria.” Relata que, em 1977, um curto-circuito causou um incêndio no Oca 1, local em que funcionava a barbearia, a sapataria e a banca de jornal. “Os alunos viram o fogo e salvaram os móveis. Não perdi nada, graças a Deus.” Após o incidente, foi transferido para a casinha projetada por Niemeyer, no estacionamento do ICC Sul, onde está até hoje.


No período da ditadura militar, testemunhou o Exército fazer um cordão em volta da Universidade. “Quem trabalhava tinha que se identificar para entrar e sair. Quando algum aluno falava sobre política, eu dava um cutucão. Sei lá se tinha algum agente por perto.” Conta que, certa vez, lhe pediram informações sobre um cliente. “Aleguei que meu trabalho era cortar cabelo e que não sabia sobre ninguém.”


Independente dos momentos, Chico gosta mesmo é de trabalhar. Diz atender “umas dez pessoas” por dia, mas reconhece que a média é maior. A barbearia abre de segunda a sexta, das 8h às 18h. Aos sábados, fecha meio-dia. “Sou muito grato à Universidade. Vivo disso aqui. Comprei meu lote, construí minha casa, criei meus meninos”. Ao todo, são sete filhos: três com a primeira esposa, três com a segunda e “outro de um namoro”. Nenhum estudou na UnB. A mais nova, com 16 anos, quer fazer Medicina. “Ela é minha esperança”, projeta.