21032017 MariaLuciaLeal4 LGPradoDiretora do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam), docente, pesquisadora, assistente social, defensora dos direitos humanos, ex-militante em movimentos estudantis, cineasta e, nas horas vagas, poeta. Os adjetivos mal se acomodam na página. Maria Lúcia Pinto Leal é a prova viva de que experiências acadêmicas podem estimular a construção de práticas transformadoras.


Se hoje trocou a aposentadoria pela gestão do Ceam, teve bons motivos. O envolvimento com temáticas de cunho social, desde a época de estudante, é o principal deles. Centro acadêmico, assentamentos, favelas, unidades de internação e ruas foram apenas alguns dos cenários de sua atuação. Surgiram em seus caminhos como ponte com o conhecimento acadêmico. “Não é só a universidade que te forma. Esses espaços são importantes para construir o pensamento crítico e propositivo de uma sociedade mais justa”, argumenta.


Um dia o dever a chamou às ruas de Brasília. Perambulou por dois anos para observar o cotidiano de meninos moradores desses espaços. A experiência resultou na dissertação de mestrado e em um premiado documentário, realizado pelo olhar dos próprios garotos. Presenteou-a ainda com o gosto pelas causas de crianças e adolescentes. “O vídeo teve papel importante na avaliação das políticas da infância”, avalia.


Como assistente social, na década de 1980, foi parar no Gama, na chamada Colmeia, à época unidade de internação para jovens infratores. Com outros trabalhadores, transformou o precário espaço em verdadeiro projeto de reeducação. “Provamos que só 10% dos adolescentes precisavam de internação. Daí, criamos a primeira unidade de semiliberdade do Gama, convencendo a comunidade que, com outra proposta pedagógica, aqueles jovens poderiam construir outros projetos de vida.”


Também abraçou a tarefa de mobilizar a inclusão, na Constituição, do artigo sobre a garantia dos direitos a crianças e adolescentes. Apenas um de seus engajamentos transformados em pesquisas, tal qual o feminismo. Não se furtou de tomar o enfrentamento à violência sexual como bandeira de luta. Já docente na UnB, ajudou a fundar o Grupo de Pesquisa sobre Tráfico de Pessoas, Violência e Exploração Sexual de Mulheres, Crianças e Adolescentes. Com o projeto, tem contribuído no subsídio de políticas públicas para o país.


Os numerosos episódios de ativismo a inspiram, como docente, a abrir as mesmas portas a seus aprendizes. “O conhecimento não tem que ser neutro. Tem que vir no sentido de um compromisso social agudo com aqueles que são objetos das desigualdades sociais.”