A superação de obstáculos e a vontade de ajudar os outros levaram Ana Paula Soares e Thayane Lima a definir a profissão que gostariam de ter na vida: o serviço social. Com procedências e sonhos diferentes, as meninas se encontraram na Universidade de Brasília, como calouras do primeiro semestre de 2017.


Ana Paula nasceu em Salvador, na Bahia, e vive em Brasília desde 2013, quando veio com a família após a mãe passar em um concurso público. A estudante acredita que a vocação está ligada à sua história de vida. Além de ter casos de violência doméstica na família, assumiu a homossexualidade aos 13 anos de idade. À época, sofreu abuso por parte de garotos que se diziam amigos, mas não aceitaram sua orientação sexual.
Outro momento marcante para Ana Paula foi quando, ainda criança, foi tirar a identidade e se deparou com um senhor de meia-idade que não sabia escrever. “Ele estava muito nervoso e isso me marcou muito. Com 40 anos, não sabia escrever e eu, com 10, sabia”, relembra.


15032017 CalouradaCASESO5 BetoMonteiroEm sua trajetória escolar, Ana Paula passou por instituições particulares, especialmente no ensino médio. “Eu nunca pensei em entrar na UnB. Não fiz cursinho para me preparar, apenas participei de todas as atividades oferecidas pela escola, como oficinas e plantões de dúvidas. Me sinto privilegiada por isso”, afirma a estudante.


“A UnB é diferente de muitas universidades. Ela te dá oportunidade de conhecer outros campos. Aqui é possível fazer matérias em vários cursos e se aprimorar no que realmente quer”, avalia. A caloura conta ainda que pretende aproveitar para estudar inglês no UnB Idiomas e, assim, alcançar a meta de trabalhar em organizações não governamentais internacionais voltadas para a mulher e para homossexuais. “Quando se entra numa ONG internacional, há mais representatividade. Ali, podemos levar o que está acontecendo no Brasil para que outros países, com mais renda, possam ajudar as pessoas do nosso país”, acredita.


Aqui na capital federal, a colega de curso Thayane Lima, que ingressou na UnB pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS), também tem intenção de auxiliar, por meio do serviço social, pessoas que sofrem preconceito e discriminação.


“Eu danço e já presenciei muitos casos de pessoas que foram discriminadas e expulsas de casa por dançarem. Houve um caso em que a mãe tentou matar o menino porque ele se assumiu homossexual e ela falou que a culpa era da dança. Então, meu maior sonho é criar uma ONG que ofereça todo tipo de assistência nesse meio artístico”, revela a caloura.


Thayane ressalta que a dança é o momento do dia em que relaxa e pode ser ela mesma. “Quando vou para o treino, não penso em mais nada. Quando estou dançando, me sinto completamente livre para ser quem sou. E, com o serviço social, pretendo viabilizar um espaço para as pessoas poderem ser quem realmente são.”


A estudante explica que ela mesma sofre pressão dentro de casa, por parte do pai, por dançar. “Cheguei a ir escondida quando era mais nova. Hoje meu pai não me impede de ir, mas sempre que tem apresentação ele não vai e, quando tem treino à noite, enche a paciência. Tento entender a realidade que ele viveu para não ficar com raiva. Entendo, mas não aceito”, desabafa.


“Meu pai é extremamente conservador e o que ele diz é lei. Então, eu vi também na UnB um lugar em que vou poder falar o que penso, já que não tenho esse espaço em casa. Aqui posso me expressar”, reconhece Thayane.