22032017 Izaias95 LGPradoEm seis anos de UnB, Eudes Izaias da Silva tem bons motivos para se orgulhar do emprego. “Ganho pouco, mas me divirto muito”, confessa, bem-humorado, sobre o privilégio de trabalhar em um ambiente prazeroso. Na portaria da Faculdade de Comunicação (FAC), na ponta norte do Minhocão, passa 12 horas de seu dia cuidando do acesso a salas de aula e laboratórios da unidade. Nos intervalos, Seu Izaias pausa para um cigarrinho

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Aos 61 anos, mantém a memória bastante afinada. Tem na ponta da língua a grade de aulas com horários, salas e docentes que irão ocupá-las, do que muitas vezes os próprios não se recordam. Também não esquece os nomes das centenas de pessoas que circulam todos os dias pelos arredores da faculdade. Amizades cultivadas ao longo dos anos, muitas delas aproveitam a passagem para trocar brincadeiras e bater papo com o porteiro. “Eu sou um autodidata. Leio muito desde criança. Por ser contestador, busco me atualizar sobre as coisas, porque o pior que existe é uma pessoa que não conhece do assunto querer discuti-lo”, vangloria-se.


De futebol a política, o repertório de conhecimentos, além do humor irreverente, renderam-lhe boa fama entre a comunidade da FAC. Não à toa, acumula três indicações a patrono das turmas de Comunicação, além de incontáveis homenagens semestrais nas colações de grau – prestígio para poucos, agora quase uma tradição. O porteiro deixou o anonimato para se tornar figurinha carimbada nos discursos de formandos dos cursos de Audiovisual, Comunicação Organizacional, Jornalismo, e Publicidade e Propaganda.


Mas nem todos receberam bem a notícia do reconhecimento alcançado por um trabalhador não concursado. “Alguém da reitoria tentou barrar uma das indicações a patrono, sob o argumento de que eu não era professor, mas os alunos bancaram a briga. A primeira, como ninguém sabia que eu era o porteiro, passou.”


De guardião das chaves das instalações da FAC, Seu Izaias chegou ainda a ser promovido a figurante em trabalhos de conclusão de curso: já participou de três vídeos e uma reportagem. O segredo para tanto sucesso entre os jovens está no acolhimento: “Conquisto os calouros logo de cara. Eles me perguntam alguma coisa, eu faço cara feia, dou má resposta. Eles chegam a tremer. Aí eu os abraço e falo: estou brincando”.


Os anos têm agraciado o porteiro. Anos que passam rápido. Enquanto não chega a aposentadoria, continua a ler tudo que cai nas mãos e a engrenar debates com velhos e novos conhecidos. “Às vezes eu sou mais feliz aqui do que em casa”, brinca. Sério e sorridente.