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Intercâmbio de sodade

 

17032017 ceu calouros11 betomonteiroOs sons do sotaque enganam. Há um quê de carioca nos ruídos emergentes na pronúncia das palavras. Talvez pelo fato de a nação de origem possuir algo em comum com o Brasil: a colonização portuguesa. Em Praia, capital de Cabo Verde, Ariana Gonçalves Rodrigues passava a infância encantada com as telenovelas brasileiras. “Sempre gostei do Brasil. Não sei se pela cultura das novelas ou por gostar de ver como o povo fala.” O fascínio despertou o desejo de, um dia, conhecer aquelas terras tropicais.


Concluiu o ensino médio com a ideia na cabeça. Passo seguinte? Inscrever-se no Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), oportunidade de formação superior oferecida a cidadãos estrangeiros de países cooperados com o Brasil. Em 2014, a aprovação na UnB para o curso de Arquitetura e Urbanismo garantiu o passaporte para o sonho. Ou quase. “Meus pais não tinham condições de me manter no Brasil.” Ariana recorreu ao governo cabo-verdiano, que lhe concedeu bolsa de estudos. Estava pronta para embarcar.


Apesar do elo pela língua, um oceano de diferenças culturais a esperava. “Fiquei impressionada com tamanho liberalismo.” Ao mesmo tempo, viu persistir certo preconceito. “Você sente que, quando sabem que você é de um país do continente africano, te olham diferente. Pensam que as pessoas da África não estão capacitadas a entrar numa universidade.”


Reconhece as dificuldades como estrangeira de viver com recursos financeiros reduzidos. No primeiro semestre de faculdade, não tinha dinheiro sequer para comprar o material básico para cursar as disciplinas. Teve o apoio dos colegas. “Foi o semestre que mais pedi dinheiro emprestado.” Em Brasília, o valor do aluguel não lhe permitia viver com quase nenhum luxo: dividia quitinete com outras quatro alunas.


No final de 2016, veio a oportunidade de morar na Casa do Estudante (CEU), alívio para a renda mensal. Conhece bem a rotina de um quarto coletivo. No dormitório, as regras são exceção. “Cada um sabe da rotina e o horário em que vai estar livre. Nesse período, quem puder limpar, limpa e avisa.” Simples assim.


O período no Brasil também a agraciou com a chegada da pequena Kiara, hoje com dois anos de idade, fruto do relacionamento com um estudante angolano. Os meses sem a filha trazem saudades. Para que pudesse concluir o curso, Ariana tomou a difícil decisão de deixá-la aos cuidados dos pais, em Cabo Verde. Espera revê-la em breve. “O futuro com certeza será com meu namorado e a minha filha juntos. Onde, não sei.” No imaginário, a conterrânea Cesária Évora canta: Sodade, sodade, sodade.

 

 

Arte de viver

 

17032017 ceu calouros15 betomonteiroRoupas e sapatos lançados ao chão. Cadernos, livros e outros apetrechos espalhados pelas mesas de estudo. Fotografias e recortes a preencher as paredes da sala. Aparentemente, há vida naquele espaço. No apartamento 123, do bloco B, da Casa do Estudante, quatro meninas compartilham as alegrias, angústias e desordens do cotidiano como estudantes da UnB.


Entre elas, Érica dos Santos Oliveira, de 21 anos, do curso de Educação Física. Chegou à CEU em busca de facilidade no deslocamento para a UnB. Eram mais de 50 quilômetros até a antiga residência, na Cidade Ocidental. Nunca havia morado fora, ainda mais com três desconhecidas. “Você tem que se adaptar muito ao estilo das outras pessoas”, confessa.


À primeira impressão, as regras do quarto são seguidas sem assiduidade. Talvez exceção do dia. As moradoras deixam o passo a passo do cotidiano na ponta do lápis – mais precisamente em uma tabela de nome Bom dia, Cinderela. Nela estão as tarefas da casa, revezadas semanalmente: limpeza do piso superior, da cozinha, da sala e do banheiro, além da retirada do lixo.


O nível de organização abarca ainda a divisão das prateleiras nos armários, na geladeira e na dispensa. Até as visitas passam por norma: avise com antecedência. “Quando eu cheguei, achava tudo muito doido”, diz Érica. Mas garante: “Apesar de todas as regrinhas, conseguimos conviver numa boa”.


As minúcias da rotina não asseguram, contudo, a inexistência da bagunça. Desapegar-se da organização contínua foi exercício difícil para Érica, ainda mais quando recebia os amigos em dias de caos. “Era uma das coisas que mais me incomodava. Hoje em dia estou bem mais relax.”


Não é muito de reclamar, mas as companheiras sempre têm reivindicações ou elogios, levadas às reuniões de DR – em bom português, Discussão de Relacionamento. Érica nunca brigou. No máximo, presenciou alguma desavença que, com a convivência, “acaba tendo que relevar ou esquecer”.


Única a passar as tardes em casa – tem o privilégio de morar ao lado da unidade acadêmica onde estuda –, ela aproveita o silêncio para ler e descansar após a série de aulas matutinas e treinos de rúgbi, modalidade que pratica na UnB há dois anos.


Os finais de semana também são pacatos. Não são muitas as diversões. De vez em quando, os moradores improvisam festas nos apartamentos e churrascos ao ar livre. Exceção em dias comuns. “As pessoas acham que morar aqui é só fazer festa todo dia, mas não é.” Morar na CEU é um constante aprendizado.

 

 

O corpo trágico se ergue

 

17032017 ceu calouros19 betomonteiroNa obra de Goethe, Fausto é o cientista cuja sede infindável por conhecimento leva à negociação com o diabo: a própria alma em troca dos prazeres da Terra. Em caminho inverso ao homônimo literário, o estudante Fausto Cândido Júnior está longe de qualquer pacto maligno. Quer aprender sempre mais. Não por ganância, mas por necessidade. A busca por compreender melhor o distúrbio que o acomete e as alternativas para o tratamento trouxe, em 2011, o aluno de Fortaleza para a UnB por três meses, em mobilidade acadêmica.


Distonia é o nome da doença, rara e degenerativa. Entre os sintomas, movimentos musculares involuntários e dores. O quadro apareceu aos 17 anos. “Foi do nada. A explicação inicial foi estresse estafa mental. Desde então tenho convivido com ela.” Tentava aos poucos dominar o novo corpo.


Em 2012, o problema evoluiu. Não lhe sobrou opção. Largou a faculdade. Viajou mundo afora para realizar exames inexistentes no Brasil e se reabilitar. No retorno, projetou Brasília como novo cenário de vida. A cidade trazia melhores possibilidades de apoio terapêutico para retomar a graduação. Aportava em 2015, na UnB, para realizar dupla diplomação, em Sociologia e Antropologia.


Deu de cara com as contradições do ambiente universitário, plural, porém desafiador. “Quando entro em um espaço, sempre há vários tipos de olhares.” A informação tornou-se arma contra o preconceito. “Esse é o desafio: você sempre deixar claro quem é e como está, para se sentir à vontade”, especialmente em sala de aula. Apesar dos entraves, considera a UnB espaço aberto à diversidade.


Sentiu-se acolhido com o suporte dado às suas condições. Fez dali seu lar. Literalmente. Mora na Casa do Estudante. O quarto parece de artista. Quadros e fotografias conceituais se misturam ao ambiente, todo adaptado a moradores com deficiência. Para auxiliá-lo nas tarefas rotineiras, tem o apoio de acompanhante. Assim, tem mais tempo para pensar nas obrigações acadêmicas.


O corpo transgressor de Fausto lhe traz inquietações, que transforma em pesquisas. Uma, sobre os direitos da pessoa com deficiência e o processo de inclusão social. Outra, sobre a demonização dos corpos historicamente repudiados, a partir de analogias com mito semelhante ao seu nome. “Tento dar visibilidade a pessoas com corpos diferentes – não só com deficiência. São corpos distônicos na sociedade.” Conquistar espaço nas diferentes estruturas sociais tornou-se o destino. Encontrou na UnB a ponta do fio da meada.