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Melancolia. No dicionário, a definição: “estado de grande tristeza e desencanto geral”. Rafael Litvin Villas Bôas ressignifica o verbete com o olhar voltado à Universidade de Brasília. “Melancolia não é tristeza, nem nostalgia. É o sentimento de uma energia represada. A Universidade tem essa energia que pode ser paralisada por muito tempo. Mas tem também ponto de origem denso, de vanguarda.”


O professor da UnB tinha uma curiosidade desde rapaz. Vasculhava, nos tempos de estudante de Jornalismo, na década de 1990, resquícios da história da UnB que pudessem nortear a compreensão do significado dos ideais de Darcy Ribeiro naquele momento.


Os traçados arquitetônicos do Minhocão, concebidos com a intenção de articular as diversas áreas do conhecimento no mesmo espaço, o inspiravam a arriscar o palpite de que algo do projeto original de Darcy ainda resistia. Mesmo com as tentativas de desmonte pela ditadura militar. Confirmou a suspeita ao longo da graduação, ao descobrir que podia “fazer do seu curso único, por diversos percursos”.


Artes cênicas, literatura, sociologia. Rafael transitou em busca do saber como quem persegue minas de ouro. Do teatro, extraiu a ousadia para potencializar reflexões. Identificava-se com os palcos desde adolescente, quando participava de grupos teatrais. Bebeu, inclusive, da fonte do chamado teatro do oprimido – foi aprendiz de Augusto Boal.


Hoje, replica o conhecimento como professor da licenciatura em Educação no Campo. Ensina jovens aspirantes a docentes de escolas rurais a fazer do teatro ferramenta de mudanças. “Os estudantes vão para o campo, montam grupos e apresentam peças a partir de questões de interesse das próprias comunidades.” Orgulha-se do resultado.


Imergiu na história do país pelas páginas de clássicos como Raízes do Brasil e Casa Grande & Senzala. Inspiração para, mais tarde, saltar do mestrado em Comunicação ao doutorado em Literatura. Já a sociologia aparece na vida de Rafael como parte das vivências acadêmicas e do convívio com os movimentos sociais e estudantil. Chegou a ser diretor do CA de Comunicação. Pôde experimentar, com intensidade, a emergência da greve em defesa da educação pública (1998) e o primeiro encontro nacional de educadores da reforma agrária (1997). Um dos impulsos para a criação, anos depois, dos cursos de Educação no Campo no país e para o envolvimento de Rafael com as lutas rurais.


Da articulação de saberes construídos dentro e fora das salas de aulas, surge um homem preocupado em renovar a Universidade. “Minha curiosidade vem de como sintonizar o que fazemos com o projeto da UnB, em uma relação de inspiração crítica e dialética”, pontua. Rafael enxerga prognóstico positivo: “A melancolia pode nos inspirar à luta coletiva”.