16022017 klaas axel a. w. woortmann4 juliominasiA história do casal Ellen Fensterseifer Woortmann e Klaas Woortmann merece um relato etnográfico. Ou seria história de vida? Por essa confusão metodológica e outros deslizes, essa observação participante pede licença poética à antropologia. O texto aqui apresentado não segue rigor científico, uma afronta à excelência acadêmica dos professores aposentados.


Para a entrevista, eles chegaram junto com a equipe de reportagem. De mãos dadas, como costumam fazer. Era assim que circulavam pelo Instituto de Central de Ciências, quando o Departamento de Antropologia situava-se no local. Ao ser elogiada pelo bonito gesto, Ellen riu com naturalidade. “O amor é mesmo brega.”


Klaas segurava uma revista científica na qual foi publicada outra entrevista sobre sua trajetória acadêmica. A professora parou para passar batom. Não foi difícil tirar belas fotos do casal tão simpático. A sintonia era nítida. A agradável conversa foi na sala da pesquisadora associada da UnB, no prédio do Instituto de Ciências Sociais, inaugurado em 2014.


Um dos pioneiros do departamento, o professor chegou à Universidade em 1973, a convite do antropólogo Roberto Cardoso. Diga-se de passagem, a Antropologia sempre teve nomes de peso. “Alcida Rita Ramos, Roque Laraia, Julio Cezar Melatti”, cita alguns. Klaas foi aluno-ouvinte de Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro. “Darcy inventou a UnB. Com sua excelente retórica, convenceu Juscelino de que era absurdo criar uma nova cidade sem uma universidade inovadora”, comenta o pesquisador.


Graduado em Geografia e História (UFRJ), Klaas fez mestrado em Sociologia (UFBA) e o doutorado em Antropologia Social e Cultural (Harvard University). Foi o primeiro autor brasileiro a escrever sobre campesinato e gênero. “Algumas senhoras me chamaram de feminista”, brinca. “Importante citar que ele também foi pioneiro em trabalhos sobre mulheres negras”, provoca Ellen.


A docente veio de Novo Hamburgo para Brasília tentar o mestrado, em 1977. Klaas estava em sua banca de seleção. “Na entrevista, ele fez uma coisa de que não gostei. Veio brincando, rindo e dizendo que eu estava nervosa”, protesta.

 

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Primeira colocada no processo seletivo, a gaúcha ingressou na pós-graduação em 1978. A paixão fulminante chegou no segundo ano do mestrado. Dois meses e meio de namoro, noivado e casamento. “Tínhamos duas amigas que ficavam atiçando: ‘Ele dá aula só pra ti’. Eu negava, claro”, conta Ellen. Perguntado sobre a veracidade da provocação, o pesquisador apenas solta uma gargalhada.


Lembra que um dia as amigas os deixaram sozinhos no Conjunto Nacional. “Foi de propósito. Elas sabiam que estávamos, assim, meio atraídos”, diz. “A gente tinha muita coisa em comum. E esse gosto pelo campo era muito legal. O campesinato e as migrações foram nos chamando.” Com olhar carinhoso, Ellen arrisca: “Acho que a gente sabia”. “Sabia o quê?”, pergunta o marido. “Que a gente ia ficar junto.”


O engraçado, para Klaas, era que metade do departamento torcia pelo casamento. “Mundo pessoal, temática intelectual, universo acadêmico. Tudo convergiu para ficarmos amarrados um no outro”, romantiza a esposa.
Ellen concluiu o mestrado e o doutorado na UnB. Tornou-se professora do quadro em 1988. Orgulha-se de ter ocupado diferentes esferas na instituição e, com isso, a vivido intensamente. “Entre muitas coisas, fui aluna, monitora, professora substituta e efetiva, chefe de departamento, diretora de instituto. Minha história está aqui.”


O casal construiu carreira acadêmica de excelência internacional. Juntos há 38 anos, unidos pela Universidade de Brasília. Vidas dedicadas ao amor e à antropologia.